11 de abril de 2011

Dispersos sobre a sociedade: do caso de Realengo

Todo dia é dia pra se pensar, mas em momentos como esse, do fatídico acontecimento em Realengo, muita gente começa a falar que é um momento para reflexão. Infelizmente, esse é um momento em que as pessoas se tornam um pouco mais receptivas, ficando um pouco mais aptas a compreender coisas reais e que, para elas, normalmente parecem muito distantes. De um modo geral, a mídia torna esse tipo de acontecimento uma espécie de espetáculo macabro, falseando posições, sugerindo análises, mas sem fazê-lo com a propriedade e a serenidade que lhe deveriam ser peculiares. Perde, portanto, um importante momento, de buscar uma reflexão mais profunda dos fatos.


É comum vermos na mídia dominante, especialistas esboçando explicações, levantando questões, mas enquadrados em um discurso midiático produzido sob medida para vender. Vender populismo e, por conseguinte, seu produto, faturando com isso. Vender uma visão distorcida ou praticamente minimalista de uma situação que é de extrema complexidade. É claro que a mídia não é uma academia, mas, em vista do seu poder manipulador, deveria ser menos tendenciosa em seu comportamento geral, e mais comprometida com o país e o povo.

Aqui, novamente lembro que não tenho interesse em fazer lucubrações de natureza mais sofisticadas, pois isso foge ao propósito do blog.  Também não disponho de muito tempo para fazê-lo agora. Darei apenas uma pequena contribuição, de natureza mais genérica, mas certamente focando o que creio mais essencial. Uma explicação mais elaborada toma extrema complexidade e demanda uma quantidade de raciocínios e referências muito grande. Não cabe aqui.

Bem, tentemos, pois, simplificar, advertindo, antes, que aqui não se trata exatamente de uma explicação ou análise percuciente dos fatos.

Há duas vertentes básicas para se considerar, em uma possível análise da questão. Uma abordagem de cunho individual, e outra, de cunho social. Há ainda que se entrecruzar as duas abordagens, se se quiser um entendimento mais profundo. De uma maneira geral, as análises que vemos são “análises” da capa d’água, e ficam relativamente longe de enxergar a profundeza oceânica. A primeira explicação qualificaria o atirador de realengo como um psicopata e a segunda como um sociopata. Na realidade, mesmo à distância, e com acesso restrito a certas informações, podemos perceber que o coquetel tem ambos os ingredientes.

Pelos relatos, pode-se deduzir que o atirador estava consumido pela dor de uma vida sem sentido, enveredando, por fim, por um caminho que o levou a uma espécie de distúrbio comportamental específico. Criança, sem um lar totalmente saudável pra seu desenvolvimento, cresceu, viveu e morreu praticamente abandonado e esquecido por todos. A única pessoa que o ligava a este mundo, sua mãe adotiva, morreu e, então, perdia ele, todo o vínculo de amor que mantinha com esse mundo. Nada mais podia lhe interessar por aqui. Mesmo depois de morto, seu corpo jazeu esquecido, sem um parente que o reclamasse em tempo justo e hábil. O último abandono. Talvez porque ele agora será lembrado e sua cova não será uma cova qualquer, com estranhos a vociferar contra ela, ou a se perguntar, em vão: por quê?

Quando estudou no palco em que se tornou a espetaculosa estrela cadente, foi achincalhado e zombado pelos colegas. Segundo relatos, teve sua cabeça enfiada em latas de lixo, no vaso sanitário, com direito à descarga. Ridicularizações várias (talvez isso explique mesmo o fato de ele ter poupado propositadamente um garoto a quem chamou “gordinho”, em quem talvez enxergara um espelho do seu próprio sofrimento). Não podemos fazer de conta que isso não existiu, e não tirar daí nenhuma lição realmente útil, portanto. Não podemos desvirtuar tudo e dizer apenas o que a turba quer ouvir. É preciso dizer que o motor da ação não emerge unicamente dentro do agente, embora a responsabilidade da ação seja sua. É preciso dizer, a partir daí, que temos que mudar nossa forma de encarar a sociedade, buscar um novo modelo de sociedade; e o Brasil bem que poderia encabeçar a empreita. Acontece que nossas escolas, e até universidades, estão enfiadas até o pescoço neste modelo acrítico, de vaquinhas de presépio, reprodutoras e repetidoras. A incompetência chega a esconder-se sob os mais diversos subterfúgios, e não há visão de todo na educação brasileira. É deprimente para quem consegue enxergar as coisas.

Assim, resta dizer o que a mídia não disse: pode, ou vai piorar! Vai piorar porque mergulhamos cada vez mais num modelo capitalista, em que as pessoas valem pelo que têm ou pelo que aparentam, não pelo que são. Pelas políticas de estado ineficazes ou inexistentes. Por construirmos um modelo social violento, física e psicologicamente, em que a culpa dos problemas é sempre dos outros, e na maioria, senão na totalidade dos casos, isso tem alguma procedência. Porque o “importante” é a economia, é vender carros para transformar as cidades em infernos barulhentos e esfumaçados. Com pessoas trabalhando mais e mais, para sustentar um sistema que nos levará, se assim continuar, ao caos. As autoridades, em sua mediocridade suma, não lutam pela decência, que é quem pode recuperar as coisas. Vivemos o Império da Superficialidade. Se as pessoas consideram, por exemplo, que o sexo deve ser livre, como o dos bichos, devem olhar para o progresso que tem a sociedade dos bichos: praticamente nenhum. Neste caso, o filho de uma relação casual e irresponsável pode acabar, em algum momento, na lata do lixo, na lagoa, ou sofrendo por uma vida desamparada, vindo, depois a voltar-se contra qualquer um que represente seus opressores.

É preciso lutar por um país em que haja a verdadeira liberdade. Aquela em que as pessoas podem caminhar livremente nas ruas, namorar livremente na praça, sentir-se respeitadas, independente de suas opções e de sua realidade material. Em que as pessoas possam ter perspectivas e vivam mais felizes, com muito menos violência, de qualquer natureza. Em que os pais amem sua esposa e seus filhos, respeitando-os, sem a hipocrisia do macho violento, contra quem, quase sempre, sequer merece. E onde quem, com todas as chances de trilhar o caminho certo, ainda assim, optar pelo caminho errado, tenha a certeza de que terá providências justas e severas contra si. Isso engloba a necessidade de que os privilégios políticos, judiciários, midiáticos, ou de quem quer que seja, não o sejam mais, e haja mais igualdade entre todos os cidadãos. Uma sociedade assim só será possível com pessoas fortes e decentes, sem puxa-saquismo (que alimenta o desejo do poder de muitos), sem privilégios para alguns que detém o poder sobre a massa informe. O problema é que ninguém consegue acreditar e lutar por um mundo melhor. As pessoas preferem entregar-se à mediocridade de tentar ajustar-se a um mundo injusto. Lute esta luta boa com as habilidades de que dispõe e, por onde passar, viva e divulgue a ideia deste sonho possível. As pessoas que pensam - não as que pensam que pensam - devem tomar frente na batalha, com ideias e ações, para rumarmos para outro modelo social. O atual tem algo a ser preservado, mas, no geral, não presta.

Como disse, a questão é complexa, e o componente individual também é fundamental na explicação dos fatos. Aqui, privilegio a questão social porque acredito que tem alcance maior nos resultados positivos. E, inclusive, porque a descrição da mente do indivíduo não pode desconsiderar a influência do elemento externo, toda a sua história de vida, fundamental  na configuração de suas estruturas mentais.

Para concluir, meu profundo pesar, por aqueles belos jovens que foram vitimados tão cruelmente, vítimas de uma sociedade doente e que muitos insistem em encobrir, porque PENSAM que ganham com isso. Pobres medíocres! Que Deus dê ainda força às famílias que ficaram sofrendo para superar, ou para que aprendam viver sem a presença de suas crianças amadas. E para que ainda encontrem forças para lutar por uma nova sociedade, para que fatos assim possam ficar no passado, lembrança de uma sociedade que não sabia que o que as pessoas precisam, em suma,  é de serem amadas. E para isso é preciso que valorizemos as coisas certas, não as ideias erradas que “nos vendem”, simplesmente porque ora não sabemos dizer não às drogas, ao sexo irresponsável, ao sistema político corrupto, à bajulação, à locupletação desmedida, à corrupção, etc. etc. Devemos saber que, de um ou de outro modo, o que fomenta a violência é a indecência. Nunca teremos um mundo, por assim dizer, perfeito, mas, se queremos um mundo melhor, precisamos dar valor genuíno ao ser humano, para só então, olharmos para o resto.

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