29 de abril de 2017

Vislumbre


“E, sentado no cimo da colina, de lá podia ver uma multidão, como massa volumosa que se movia por entre o capinzal e os pequenos arbustos, dando impressão de um enorme ser, evoluindo sobre o solo, com vida própria.

Com finas varas de marmelo, um pequeno grupo vestido em andrajos sob tons de carmim tangia o ajuntamento informe por onde não havia caminhos, apenas uma paisagem monótona, de tênue e regular gradação, que ia do verde claro até o mais escuro, misturando-se a clareiras de terra, também avermelhada, e que soltava nódoas em todos que inevitavelmente a pisavam. O cenário formava um mapa previsível, repetitivo, mas, ainda assim bucólico, de uma beleza fugidia.

Com convicção, diziam-lhes os almocreves que lá adiante havia lagos e ribeiras, águas repletas de peixes, e que eles até se deixariam pegar pelas mãos; falavam de pássaros e de plantas frutíferas, cujos galhos arrastavam pelo chão, puxados pelos frutos. Nada, nenhum sinal além do imenso zelo aparente e das palavras incisivas, nada fazia suspeitar que aqueles passos os levavam a todos em direção aos campos de extermínio.

E, olhando de lado, disse em tom calmo e resignado para o companheiro de vislumbre, que sentava ao largo, com os joelhos ambos presos pelas mãos, e que os trazia como para dentro do ventre: “Lá vão eles!...”

 
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2 Comentários
Comentários

2 comentários:

E. SANCHES disse...

Muito bom como sempre!
Parabéns velho jovem amigo!

Vinícius Lemarc disse...

Grande Edelzio, como você sabe, sou admirador do seu trabalho no Bang Bang à Italiana no Brasil, sem dúvida um dos melhores blogs do gênero. Realmente um espetáculo, com uma riqueza de detalhes e informações preciosas. Um elogio de uma referência na área, e grande artista como você, é sempre animador.
Um forte abraço!

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