8 de maio de 2014

Futebol e Ladeiras!



Como facilmente se pode ver na Ode ao Esporte, escrita para homenagear esse que considero uma espécie de fenômeno natural, ainda mais que criação da inventividade humana, sou um grande apaixonado pelo esporte, seja ele de praticamente toda modalidade. Falo assim, deixando o espaço da restrição, porque tenho, ainda, alguma reserva no tocante a esportes que espetacularizam a violência; não que eu seja demasiado sensível para ver homens engalfinhados, trocando gentilezas com os punhos cerrados, ou seja um militante, daqueles que acham que sabem acerca de tudo que pode fazer mal à humanidade, e daí tenham cerrados, veementes, os punhos do raciocínio aceitável. É que a cena, para mim, soa um tanto ridícula, com nenhuma poesia, além de arrastar uma multidão plana, que decresce vertiginosa em suas formas de pensar e de agir, por assimilar exatamente a parte ruim que o rentável show exibe.

Pois bem, sou declaradamente um apaixonado pelo esporte; pela boa filosofia, individual e coletiva, que ele pode ofertar; pelo prazer e bem-estar que ele pode levar à vida das pessoas; portanto, o que vou dizer não pode ser creditado à minha desavença com a atividade desportiva ou à minha falta de contato com ela.

Feita a reserva necessária, resta ainda, antes de iniciar, dizer que não tratarei, neste breve texto, de tão ampla matéria, mas apenas e tão somente do mais popular e difundido dos esportes, e de modo especial em nosso país, o futebol. Esse deveria ser um dos primeiros textos que eu sempre ansiei publicar por aqui, mas foi, com certa insistência, sendo preterido, deixado para um instante qualquer, para uma sobra de tempo, que na verdade nunca aparece, especialmente para o que já quase autômato reflete sobre tudo quanto pode.

Começo pelo começo. Ainda muito jovem, por volta dos cinco, seis anos de idade, na companhia sutil de meu pai, descobri o futebol; descobri que existiam clubes, e que as pessoas torciam por eles e pelos craques, artífices da bola, o luxo artístico das grossas camadas menos abastadas, que em geral nunca tinham frequentado, por exemplo, um teatro. Infelizmente, hoje nos vemos às voltas com o futebol, apenas; porque a arte, essa levou cartão vermelho faz um bom tempo. Assim, logo estava eu jogando bola na rua de casa, no campinho da escola, enfim, como a maioria dos meninos brasileiros, correndo feito louco atrás dum troço ligeiro e magnético, que puxa incontrolável os pés das pessoas para perto dele. 

Como espectador, eu peguei a fase de Zico, que, para mim, foi o maior de todos, e sem fazer marketing que não fosse com a bola; um maestro, que jogava na criação, com um final de carreira que foi abreviado e recheado de graves dificuldades, mas que, mesmo assim, quase chegou aos mil gols. E se cada lance de beleza valesse um gol, ele seria imbatível. E fora de campo, como se não bastasse, sempre me pareceu um homem admirável. Foi o tempo da locomotiva flamengo, da seleção de Telê, de craques como Sócrates e o calcanhar de vida própria; tempo em que os goleiros, em vez de bola, assistiam dinamite furar-lhe as redes, enfim, um tempo muito bonito, pelo menos no meu imaginário.


Por cerca de uma década e quase outra metade eu acompanhei com razoável atenção o que acontecia no futebol, especialmente o brasileiro, mas, conforme eu entendia melhor certos aspectos do funcionamento da paella futebolística, e a cada decepção, eu me distanciava um pouco mais, de modo que cheguei a praticamente abster-me de acompanhá-lo. Não que eu tenha deixado de gostar de futebol, mas hoje não sei praticamente nada a respeito. Quem joga com quem, ou em qual campeonato. Em suma, não vejo jogo praticamente nenhum, nem mesmo sei quando a seleção brasileira se apresenta. Vejo algo apenas em época de copa, mas de modo fortuito, e torço sem muito entusiasmo por qualquer time que ainda seja capaz de alegrar um pouco. Fico desapontado, e graças à providencial contribuição dos demolidores do futebol, por não conseguir mais me empolgar sequer com a nossa quase sempre apática seleção. Talvez até veja algo da copa, mas seguramente estarei muito longe de ser o maior torcedor da nossa escrete, diferente do tempo em que, empolgados, enfeitávamos as ruas do bairro, curtíamos as músicas e fazíamos apostas. Se abandonar um pouco o regime, torcerei, eventualmente, e quase igualmente, por um outro time que jogue com alguma simpatia. Torcerei pelo futebol.

Tempo desses resolvi assistir a um jogo badalado, aquele fatídico Santos e Barcelona, na final do mundial. Acordei cedo e decidi vê-lo, uma vez que ele parecia interessante e, havia alguns anos, não via nada a respeito. Poderia ser uma rara oportunidade de ver dois bons times jogando. Assisti incrédulo ao primeiro tempo, que tinha um time só em campo. Já ia saindo quando ponderei, “não é possível que esse time não corrija alguma coisa no intervalo, isso é inacreditável”; vou ver pelo menos parte do segundo tempo; fui até o final do jogo esperando o Glorioso da Vila entrar em campo, e corroborei, decepcionado, que o Brasil não é mais o mesmo. Nunca vi exibição pior de um time na minha vida. Obviamente, percebi que não foi negócio algum perder aquele tempo todo com tamanha imbecilidade. Voltei à minha clausura, protegido da tolice completa que o futebol se tornou.

O fato é que muitos problemas se amontoaram no correr dos anos, e a perspectiva de melhoria tem sido desanimadora. Praticamente tudo, dentro e fora do esporte, evoluiu, mas o futebol continua um troço atrasado. A tecnologia, fundamental para melhorar a precisão das decisões arbitrais, como evitar que gols sejam anulados ou validados indevidamente, nunca foi levada realmente a sério. Todo o trabalho de uma equipe volta e meia é jogado na lata do lixo por falta de investimento em modernização, compromisso e respeito com clubes e, principalmente, com o público que acompanha os torneios. Dá para achar que é mesmo esse o interesse, manter um nível de controle, com o intuito de beneficiar times de elite, como nos casos em que certos agremiados permanecem nas séries mais altas por meio do tapetão.

Outro problema que somente se agrava é a clássica mistura de futebol, política e alienação. Teremos, por exemplo, uma copa e uma olimpíada providenciadas como forma de propaganda política e ideológica; recheada de irresponsabilidade, corrupção, elefantes brancos e estrutura para receber o evento e as pessoas à base de improvisos e puxadinhos de toda sorte. Tudo isso justamente quando o país vinha de conseguir alguma estabilidade econômica e era hora de responsabilidade, de focar no incremento estrutural do país, que padece sem portos, ferrovias, hidrovias, estradas decentes, aeroportos, e por aí vai. Num momento tão importante aparece alguém e decide, de modo megalomaníaco, desperdiçar tempo e dinheiro com um espetáculo, para mostrar o Brasil dos sonhos para o mundo. O problema é que a essa altura o mundo todo já viu que o Brasil ainda não é muito mais que uma republiqueta de bananas (digo isso com pesar, porque essa terra é uma preciosidade mal aproveitada). Se tivéssemos nos dedicado a desenvolver com afinco o país, em vinte ou trinta anos, poderíamos fazer seguramente as olimpíadas e quiçá a copa mais bonita da história. Mas alguém achou que isso não era importante. E o povo, pelo visto, vai deixar barato. Enfim, o espetáculo tem sido reiteradamente prejudicado pelo uso político e inadequado, oriundo de agentes públicos, de oportunistas ideológicos, e até, em escala um pouco diferente, por parte de jogadores e celebridades, como no recente e lamentável episódio do “Somos Todos Macacos”.

Outro miséria que se abateu sobre o futebol foi a cultura da violência, afastando as famílias e as pessoas menos empolgadas dos estádios. A criação das torcidas organizadas foi mais um dos espasmos localizados da nova ordem mundial, que deu sua negativa contribuição, a piorar um dos principais meios de diversão da grande massa, antes apenas fanática e apaixonada, com suas coreografias bonitas e olas. Agora é um negócio feio de se ver. Ultimamente, a polícia é alocada em peso para trabalhar nesses eventos, com o fito de evitar que gangues sanguinárias se enfrentem, enquanto o povo fora dos estádios fica apegado apenas a Deus. É preciso que ruas inteiras sejam reservadas para a passagem das torcidas, batedores nos ônibus, tudo porque elas deixaram de pensar apenas na diversão das partidas. Virou tudo às avessas; os jogadores, a cada instante são encurralados em aeroportos, centros de treinamento, um cenário, em suma, desolador.

Na televisão aberta, que atinge o maior público, os narradores se encarregaram de fabricar quadrados, abstrações e mais chavões, como quem chama o povo de imbecil. Jogadores, muitas vezes medíocres, são alçados artificialmente ao estrelato, ganham milhões e se especializam, entre outras coisas, em dar maus exemplos para a juventude que os segue. Menos pontos para o espetáculo.




Outra coisa vergonhosa é o modo como o futebol se transformou em um vasto campo para que maus políticos, maus empresários e outros malfeitores façam lavagem de dinheiro. Segundo notícias na imprensa, somas vultosas, como as provenientes do desvio de verbas públicas e do crime organizado, são, então, tranquilamente esquentadas. Também não poucos empresários, especialmente dos grandes grupos de mídia, conservam um nível altíssimo de poder junto às ligas e federações, estabelecendo um verdadeiro submundo de negociatas e velhacarias, tudo sempre muito rentável para ambos os lados, menos para os tolos apaixonados, que vendem o almoço para comprar ingressos, camisas e tudo referente ao circo montado.

E isso não é tudo. Não é todo campeonato que merece algum crédito. Vez por outra acontece manipulação de resultado, beneficiando apostadores de loterias, bolsas de apostas, por meio da ação dolosa de juízes, cartolas, jogadores, etc. É outro problema que manchou em muito a imagem do espetáculo, e abalou a confiança de muita gente quanto à lisura e à fidedignidade dos resultados.

O exagero no número de transferências e, em alguma monta, de naturalização de jogadores, também cria anomalias, como a falsa ideia de que Barcelona, ou Real Madrid, por exemplo, são os maiores times espanhóis, e que os times espanhóis são os melhores, quando, na verdade, sequer existem. Nesses casos, não há propriamente times espanhóis mas seleções custeadas a peso de ouro, provavelmente corrupção e alienação popular. Esse é um fenômeno comum em várias partes do mundo;

Com essa internacionalização dos jogadores de maior destaque, os craques das seleções, surgem indícios bastante suspeitos da existência de casos como de orquestração por partes das seleções que querem se projetar, vencendo torneios como a Copa do Mundo, fazendo de tudo, até comprar jogadores dos seus maiores adversários, como o Brasil, com o desejo provavelmente secundário de destruir-lhes metodicamente as características físicas, técnicas e até seu depósito psicológico. Nesse último caso, a estratégia é a da humilhação pública através de treinadores, torcidas, dirigentes, etc.

E para sentar o prego à tampa do ataúde, não bastasse tudo isso, desestimula-se firmemente que jogadores ousem ser um pouco mais criativos ou mesmo espetaculosos. É quase uma proibição, porque agora existe o politicamente correto no trato com os dribles, com os trejeitos e com a bola. Se a finta não for respeitosa, o adversário se sente diminuído, vitimado em sua dignidade de jogador. Um drible mais desconcertante pode ser ofensivo e quase digno de ação na justiça contra o seu autor, quase sempre um negrinho travesso, oriundo da periferia, que “tem preconceito” contra o colega jogador, o que se acha acintosamente perna de pau.

Hoje, o que restou relativamente aproveitável, de genuíno e capaz de ainda agradar um pouco, é o chamado futebol da várzea, o campeonato da escola, do bairro, da empresa, essas coisas. Ainda pode ser bastante estimulante a disputa onde dinheiro e a celebrização é o que menos importa. 

É uma pena que a cada dia mais pessoas se afastem de esportes populares como o futebol, afinal ninguém é de ferro, precisa de momentos de lazer e bobagem, a seu gosto, e isso ainda pode ser uma pequena válvula de escape para muita gente e indutor de emoções para tantas outras.

Se as coisas continuarem nessa descida sem freios, acredito que restará, por fim, um esporte pouco prestigiado, e que precisará mais do que nunca contar com a obtusidade de uma massa cada vez mais abundante. E se o Brasil perder de novo a copa, e dentro do seu terreiro, muito mais gente, e muito mais rápido, abandonará a nau, juntando-se aos que, já antes, e durante os protestos anticopa, tinham seguido esse caminho. Pelo menos restará, se as crianças continuarem podendo sair à rua, o joguinho improvisado na ladeira mais próxima e menos movimentada do bairro.



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