11 de março de 2012

Amore, Piombo e Furore



(aka China 9, Liberty 37, A volta do Pistoleiro, Clayton Drumm...)
País: Itália/Espanha
Língua: Italiano/Inglês
Ano: 1978
Duração: 102 min
Direção: Monte Hellman
Fotografia: Eastmancolor 2.35:1
Elenco Principal:
Warren Oates: Mathew Sebanek
Fabio Testi: Clayton Drumm
Jenny Agutter: Catherine Sebanek
Sam Peckinpah: Wilbur Olsen
Isabel Mestres: Barbara, Virgil's Wife
Gianrico Tondinelli: Johnny Sebanek
Franco Interlenghi: Hank Sebanek
Paco Benlloch: Virgil Sebanek
Natalia Kim: Cassie
Ivonne Sentis: Prostitute
Romano Puppo: Zeb


Amore, Piombo e Furore é um western que claramente se inscreve na categoria daqueles que já demonstravam a seu tempo o curso de uma assimilação da contribuição europeia ao gênero. Portanto, trata-se da contribuição para a redefinição de alguns dos parâmetros fundamentais do western, em favor de torná-lo, visualmente, e em seu argumento, uma terceira via, acrescendo-a - o que parece não ter sido ainda precisamente atestado pelos estudiosos - e criando o modelo atual, que, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, apresenta as mesmas características básicas. Filmado na Europa e envolvendo artistas do continente, podemos chamá-lo europeu, mas, o próprio diretor afirmou ter buscado mantê-lo ligado às premissas básicas do modelo clássico do western de linha americana.

Dotado de grande talento e de uma sensibilidade artística refinada, Monte Hellman produziu material que, mesmo recoberto por alguma sutileza, acrescentou algo em termos de concepção ao gênero. Hellman é daquele seleto grupo de diretores que pôde se dar ao luxo de realizar filmes interessantíssimos com minguadas moedas no alforje, a confirmar que é possível fazer arte sem dinheiro, porém, jamais sem talento.

Pouco mais de uma década após realizar Ride in the Whirlwind (1965) e The Shooting (1965), dois faroestes mal recebidos pelo grande público, e que ainda hoje reluta em perceber que o argumento de ambos os filmes se sustenta no drama psicológico vivido pelas personagens e no significado de seu deslocamento no espaço da ação, Hellman rumou para a Europa e filmou, quando o eurowestern já estava em pleno declínio, esta película, que, por força de usar as locações espanholas, pela parceria com a Itália e a consequente influência do modelo correspondente, é considerada parte do gênero peninsular. O filme foi feito com cuidado e dedicação, segundo palavras do próprio diretor, procurando alcançar uma textura narrativa de western americano, mas enriquecida com o tipo de realismo estético caro ao western europeu, e conferindo-lhe uma atmosfera lúgubre e um tanto claustrofóbica, a denunciar a ambiguidade de suas personagens centrais.

Para alcançar seu intento, Hellman foi um artífice muito eficiente, ao fazer escolhas, a meu ver, muito acertadas. Destaquem-se, entre essas, a impressão de um ritmo lento, contrário à maioria dos filmes western, especialmente europeus, e a opção por um roteiro que privilegiou as falas curtas, precisas e devidamente motivadas. Hellman foi ainda cuidadoso e poético ao construir cenas como a do banho matinal, quando Catherine observa Drumm como a um deus grego, a ninfa extasiada diante de Apolo, quase que pintando um quadro renascentista. Outro exemplo que podemos citar é a bucólica cena do almoço ao ar livre; enfim, sequências aparentemente desinteressadas, mas que cumprem um objetivo consciente, além de serem cheias de beleza e realmente capazes de prender o espectador.

Um dos objetivos dessas sequências parece ser o de dar autenticidade e conferir a identidade necessária do caráter e do modo de vida em um ambiente rústico, desolador, instaurando assim um tom existencialista que recobre toda a ação das personagens. Outro recurso utilizado pelo diretor foi a cuidadosa inserção de uma trilha sonora totalmente compatível com o objetivo de dar ao filme essa atmosfera desoladora, quase sempre distante de ter como objetivo criar algum tipo de função de cunho romântico ou mesmo retórico, embora se situe no exterior da ação narrativa. Para a missão, ele escalou o compositor italiano Pino Donnagio, que nos brindou com uma trilha das melhores no western.


A história de Amore, Piombo e Furore se inicia quando Clayton Drumm, um condenado à forca, consegue safar-se do impiedoso destino, mediante contrato para assassinar um ex-pistoleiro da companhia de trem, Mathew Sebanek, cujas terras são desejadas pelos ex-patrões. Chegando ao rancho deste, Drumm é recebido pela cautela e pela mira atenta do rifle do experiente pistoleiro. Após desarmar o visitante, Sebanek permite que ele passe alguns dias consigo, enquanto supostamente se recupera da fadiga da viagem. Sebanek mora praticamente sozinho na imensidão do lugar, tendo como companhia a bela esposa, que é vários anos mais jovem que ele. Sebanek desconfia das intenções de Drumm em matá-lo, mas, ainda assim, trata-o com alguma cortesia, o que, por fim, conduzirá o pistoleiro ao abandono dos planos quanto ao futuro de seu anfitrião. Forma-se, portanto, um trio insólito, e o visitante termina por quebrar o equilíbrio existente até sua chegada. Catherine é peça chave no desenrolar da história. Ela lembra a anti-heroína de Flaubert, encarcerada que está em uma relação desprovida de encantos condizentes com sua energia juvenil. Assim, logo ela vê no viajante uma possibilidade de fuga de sua prisão sentimental e de autorrealização. Há no trato da questão uma clara abordagem naturalista por parte de Hellman. Essa visão difere da visão imediatista de Catherine, que é mais romantizada, e, por que não dizer, pragmática. Essa abordagem do diretor pode ser claramente observada pela conduta de Catherine. Em todos os momentos do filme, seja no início, mesmo no fim, a personagem de Jenny Agutter denota diante da figura vigorosa de Drumm quase que um encantamento. Mas esse se caracteriza por seu flagrante imediatismo; não se apoia em quaisquer outros fatores, além da premente necessidade de fuga da sua realidade presente. A interpretação de Jenny Agutter pode estar muito longe de ser uma das melhores do cinema, mas ela convence, criando uma personagem que surge apática e totalmente crível, fechada em seu mundo, mas agindo desesperadamente em seu interior psicológico. Isso talvez seja mesmo difícil de notarmos, porque contradiz sua forma contida de mover-se. Diria que ela atua parecendo não ter vida. Mas será que este não era seu objetivo? Penso que sim.

Uma interpretação que ressalta no interior da película é a de Warren Oates, sempre muito convincente. No trecho em que o grupo formado por Sebanek e seus irmãos retornam para casa com Cath, e pernoita ao relento, Oates apresenta ao espectador provavelmente o ponto alto de sua interpretação, no filme. Os outros atores também têm excelentes interpretações, dando boa credibilidade ao conjunto de acontecimentos, e mantendo-se sabiamente dentro dos limites requeridos para seus personagens.

Como o leitor já percebeu, Catherine acaba por se envolver com Clayton Drum, e isso cria um novo viés dramático na história. Não irei contá-la obviamente por completo aqui, mas note-se que este se entrelaçará aos outros, dando certa complexidade ao roteiro. Entre Drum e Sebanek a relação vai do conflito para a amizade e retorna para aquele. Drum, que estava inicialmente ao lado da companhia de trens, muda de lado e passa a ser alvo, como Sebanek, que passa a ter Drum como seu novo alvo, numa espécie de quadrilha de Drummond. Em resumo, afora a companhia de trens, nenhum dos protagonistas deixa verdadeiramente claro, no interior de suas relações, de que lado está de fato, e, sem dubiedade, quais suas reais motivações.

A construção desse triângulo não é exatamente nova no western, e, talvez, o caso mais famoso seja o de Shane (1953), que também retrata um pistoleiro viajante que se instala na casa dos Starret e causa, digamos, alguns desconfortos. Mas, no caso de Shane, a condução da situação nunca é tão direta e clara. Há uma moral implícita, que perpassa a conduta dos protagonistas. Além disso, há no interior do núcleo familiar, um tipo de equilíbrio que jamais houve em Amore, Piombo e Furore. Sem dúvida, em suas linhas gerais, as semelhanças entre o clássico de Stevens e o western moderno de Hellman parecem acabar por aí, inclusive no que tange à forma distinta com que as mulheres são vistas pelos maridos nos dois casos; no de Sebanek, porém, parece haver mobilidade, uma evolução em direção à mesma situação de Starret quanto a sua companheira. Chama atenção ainda neste cotejo a simbólica cena do incêndio, urdida por Hellman no final da película e que se opõe à visão presente em Shane. Realmente Amore, piombo e Furore é um filme que não pode gozar facilmente de apreço por parte de um público essencialmente machista, mas deixando de fora as pertinentes questões de cunho moral e voltando-se para o objeto artístico, por assim dizer, podemos sim constatar que se trata de um filme bem feito, com a reconhecida assinatura de Hellman.

Outro elemento que penso ter sido uma escolha realmente feliz do diretor é a trilha sonora. São músicas realmente muito bonitas e que deram ao filme um tom muito agradável. Não sei se posso dizer que é equivocado, mas me parece que Hellman exagerou um pouco no uso da mesma, resultando em alguma contradição, ao criar para o espectador certo tom inapropriado de romantismo. Sem dúvida, poderia ter sido mais econômico nesse quesito. Enfim, Amore, piobo e Furore tem sim algumas falhas que lhe diminuem um pouco o mérito. Particularmente não gosto muito do trecho que se passa no circo, razoavelmente executado e talvez pouco necessário. A fotografia é boa, mas pouco ajudada pelos cenário um tanto pobres. Os tiroteios também são medianos e pouco valorizam o filme, entre outras pequenas falhas apontáveis, como alguns deslizes nos efeitos, mas nada realmente grave e que prejudique seriamente o resultado.

Pode-se dizer ainda que, entre outras contribuições, Amore, Piombo e Furore reforça e ajuda a dar fôlego a uma prática, que, se não era de todo nova, porque usada anteriormente, por exemplo, por Raul Walsh em Pursued (1947), ou por vários outros diretores em filmes como Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (1966), que é a de aproximar o western de outros gêneros, como o Cinema Noir, no caso de Walsh, ou do épico, como em  The Plainsman (1936), de Cécil B. DeMille, ou mesmo do musical, como em Calamity Jane (1953), com Doris Day, afigura-se um dos caminhos mais prováveis e razoavelmente eficientes nos anos seguintes para gêneros fortemente delimitados como o western.

Em Amore piombo e Furore, Monte Hellman o faz de modo consciente, e patente para o espectador. Há no filme uma boa dose de erotismo, algo relativamente estranho ao gênero.

O tema da sexualidade e do erotismo já fazia parte da tradição clássica, surgindo em filmes como The Outlaw/1943, ou Duel in the Sun/1946, mas a abordagem difere da anterior por ter um caráter, digamos, mais dionisíaco, mostrando-o quase como celebração, e em que a motivação se apresenta, como dissemos, sob um tom bastante naturalístico. Hellman faz várias referências a isso, deixando claro ser esse um componente que está sempre presente, embora conscientemente sufocado, nas relações e trocas diretas ou indiretas que se instauram entre homens e mulheres no interior da sociedade, seja isso bem ou mal conduzido. Podemos notar essas referências já no início do filme, quando, prestes a ser enforcado, Claytom Drumm troca olhares com uma chinesinha, que parecem ir além da apiedação por parte desta, quanto à condição de condenado de Drumm. Outro momento em que se nota isso é quando o herói se prepara para sair à caça de Sebanek; a câmera inicia por um close-up detido à altura dos quadris de Drumm, bastante incômodo para os conservadores mais radicais. E segue fazendo referências assim, como quando filma a bela Jenny Aguter como se fosse uma ninfa a banhar-se sensualmente no pequeno riacho próximo à casa dos Sebanek. O recurso se repete em vários momentos do filme e prenuncia de certo modo um western “mais cerebral”, considerando-se os novos padrões que passariam a viger nas décadas seguintes. Assim é que após o ocaso do western, este continuou buscando seu caminho, nem sempre muito feliz, claro, e uma das formas que se encontraram para isso foi misturá-lo a outros gêneros, normalmente de mais popularidade entre as novas gerações, como o cinema de horror, o que se pode constatar em filmes como Legend of the Phantom Rider (2002), a ficção, como em Wild Wild West (1999) ou Cowboys e Alliens (2011). Nesse sentido, Amore Piombo e Furore parece assentar-se na linha do eurowestern, mais que na do western americano, por todo o teor de experimentalismo que gozou aquele, renovando o gênero nas décadas de 60 e 70, mesclando-o ao filme de terror, à comédia pastelão, ou mesmo ao sentimento libertário e ao ideário que avançava à epoca.

No Brasil, não tenho conhecimento de uma edição do mesmo. A edição que a custo conseguimos é totalmente mutilada, tanto quanto à imagem quanto no que diz respeito ao tempo da película. Já passa da hora dos empresários da área voltarem-se para publicar os filmes em DVD e Blu-Ray, sejam de qualquer gênero ou época, e com qualidade, respeitando o consumidor brasileiro. Isso não impede que continuem lançando as abobrinhas que, com certeza, vendem muito mais, porque a grande massa não tem defesas contra as sutilezas culturais, sociais e econômicas que se lhe impõem. Se aqueles defendem um negócio legal e condenam a pirataria, não podem contradizer-se deixando de ter um mínimo de compromisso, pelo menos quanto à questão da relação de consumo.

Para finalizar, lembro que não esqueci as figuras dos roteiristas ou da importante menção a Tony Brandt, diretor assistente, que inclusive é creditado como codiretor, ou de outras figuras no mínimo interessantes no filme, como a ilustre presença do “poeta da violência” hollywoodiano, Sam Peckinpah. Isto é só uma breve resenha, cujo foco manteve-se nos restritos limites da apreciação de alguns aspectos qualitativos do filme, uma vez que, quanto aos aspectos externos, muita gente boa tem discutido mais detidamente na internet, e você, caro leitor não terá dificuldades em encontrar. Na guia conexões sugiro alguns blogs em que você pode ler mais sobre faroeste, como o Cinewestermania, que publicou há pouco tempo sua visão sobre o filme, além de vários outros espaços interessantíssimos para os amantes do cinema, especialmente western.

Um abraço e boa sessão!








Veja algumas imagens do filme:


6 Comentários
Comentários

6 comentários:

marcela disse...

Olá Lemarc, parece coisa mto boa heim?
bjo

Lemarc disse...

Olá... Quão bela visita!

Marcela, é um filme interessante, mas infelizmente, no Brasil, e mesmo fora, é bem difícil encontrar uma versão em DVD, com ou sem qualidade, do mesmo. Não sei se você gosta de westerns, até porque as iniciações hoje normalmente se dão com filmes pouco atrativos, porém mais disponíveis. Este pode ser um bom começo, porque ele não é tão western assim, como os de linha americana. Vou ver se dou também atenção a outros filmes, especialmente para
quem gosta de outros estilos. O próximo acho que você vai gostar.

Beijo!

Lemarc

Darci Fonseca disse...

Vinicius, conheci esse filme por acaso. Phil Hardy em sua enciclopédia The Western, 2.ª edição, desculpa-se na introdução por não haver listado esse faroeste de Monte Hellman, enganado que foi pelo estranho título inglês. Não me esqueci do título, realmente inusitado para qualquer tipo de filme. Eis que em 1993 o antigo canal Showtime (desaparecido no Brasil), programou esse filme com o título Contrato para Matar. Assisti e achei muito interessante. Conhecia já Corrida sem Fim e Galos de Briga, de Monte Hellman e sabia que ele era um diretor anticonvencional, pertencente à turma de Bob Rafelson e Nicholson. Pena que sua carreira declinou depois do remake de O Destino Bate à Porta. Foi bom rever Jenny Agutter em China, mas melhor ainda seria rever Walkbout, inesquecível filme de Nicholas Roeg que desaparecu totalmente de circulação.
Um abraço - Darci

Lemarc disse...

Darci,

Não sou o que se pode chamar um grande conhecedor dos filmes de Monte Hellman; pelo menos, assisti a poucos dos seus poucos filmes. Apenas quatro. Mas gostei de todos eles. O curioso é que o Monte faz parte de um grupo de cineastas que ajudou a apontar caminhos de renovação no cinema, mas se perdeu nesse mesmo caminho, o que não aconteceu com Scorcese, por exemplo. Mas, claro que isso não tem a ver apenas com talento. Temos que ver agora se Caminho para o nada o recolocará no caminho. O problema é que é um Monte Hellman. Quanto a essa coisa de remake eu a acho sempre temerária. Se já é difícil fazer remake de um western, imagine de um filme em estilo noir. Gosto muito do primeiro O destino bate à sua porta com a Luna Turner e acho mesmo difícil que o segundo possa superá-lo. Não sei se isso tem a ver com a minha pouca simpatia por refilmagens. Dos poucos filmes com outras versões que acho que se salvam eu vejo Bravura Indômita, que inclusive tem coisas melhores que na versão de 69, mas ainda assim prefiro a do velho Duke. Outro caso é o de Cimarrom, com Gleen Ford, mas também prefiro a versão de 1931. Quanto ao interessantíssimo Walkabout, eu ainda não consegui ver, mas vou ver se dou um jeito nisso.

Abraço!

Lemarc

Anônimo disse...

Prezado Lemarc,

A cópia em VHS que eu tenho, o título em português é "A Volta do Pistoleiro" e em inglês é "China 9, Liberty 37, o qual é um ponto de cruzamento em uma estrada no oeste americano. É um western estranho e interessante como os dois anteriores de Monte Hellman. É, também, valorizado pelas presenças da bela Jenny Agutter, o excelente Warren Oates e poeta da violência Sam Peckinpah.

O seu comentário elucidou alguns pontos que eu não tinha percebido.

Mario Peixoto Alves

Vinícius Lemarc disse...

Mario, este, como tantos outros filmes interessantes, como Heaven's Gate, não receberam um lançamento à altura no Brasil, em se tratando das mídias DVD e congêneres. Creio que Heavens Gate nem foi lançado, na verdade. Há muitos filmes bons que sabemos, mas que são preteridos para o lançamento de certas bobagens. Tenho optado sempre por falar sobre esses filmes menos badalados. Gosto dos filmes do Monte, em especial esse e Ride in the Whirlwind, que no Brasil tem o nome A Vingança de um Pistoleiro, mais um título sem nenhum sentido, com finalidade apenas comercial.

Um abraço!

Vinícius Lemarc

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