4 de outubro de 2011

Marcha das Vadias: do decote e do recorte


Contraste


No início de 2011, após uma sucessão de ataques sexuais a mulheres na Universidade de Toronto, no Canadá, o policial Michael Sanguinetti afirmou, em uma palestra, que as mulheres deveriam evitar vestir-se como vagabundas para não potencializar os riscos de serem estupradas. Sem noção da repercussão que suas palavras teriam, e com alguma malversação de suas ideias, Sanguinetti tornou-se,
involuntariamente, uma espécie de símbolo do machismo universal moderno e uma espécie de coautor do mais novo bastião do movimento feminista no mundo: a marcha das vadias.

Assim é que, em 3 de abril deste ano, na mesma cidade, foi organizada a primeira Slut Walk, ou “Marcha das Vadias”. O evento contou com a presença de 3000 pessoas e rapidamente espalhou-se por vários países do mundo, chegando ao Brasil em 4 de junho deste ano, com números bem mais modestos: cerca de 10% da primeira marcha, em Toronto. Com faixas e cartazes contendo frases feministas e libertárias, e vestida a caráter, ou bem pouco vestida, a marcha das vadias “juntou-se” à marcha da maconha, à parada gay, demonstrando a força da manifestação popular e da internet, como poderosa ferramenta de congregação de grupos de toda natureza. De nosso lado, torcemos que esse hábito possa evoluir para causas ainda mais urgentes e importantes, com a criação, por exemplo, de marchas como a “marcha anticorrupção”, ou a “marcha por uma nova justiça”. Marchas que podem contribuir para nos tirar de boa parte do atraso cultural e intelectual dominante no país, diminuindo sensivelmente os seus efeitos.

As “vadias politizadas” argumentam que o modo como uma mulher se veste só cabe a ela decidir. E que o fato de uma mulher se vestir de uma maneira, digamos, provocativa, não significa, primeiro, que ela é uma... vadia, segundo, que ela esteja disponível para qualquer um que queira simplesmente estuprá-la. Elas sintetizam esse pensamento em cartazes com frases do tipo “meu corpo, minhas regras”.

Bem, vejamos se conseguimos avaliar um pouco do que envolve essa questão. Em primeiro lugar, é óbvio que nenhum, mas nenhum comportamento pessoal dá direito a quem quer que seja de violentar sexualmente alguém, seja quem for. E isso deveria se estender não só às violências físicas propriamente ditas, mas a muitos casos de violência psicológica. Faço essa pequena ressalva aqui, apenas em virtude dos casos extremos, amplamente controversos e que não cabem discutir no momento.

No meu entendimento, existe aí um aspecto central no problema e que é, em certo sentido, pouco explorado. Cada grupo faz um recorte específico, empunha a alabarda e vai à guerra. Esquece, impetuoso que está, que o centro dessa questão que vivemos hoje é propriamente o da “valorização da mulher”. Ora, querendo apenas ver as coisas com clareza, não creio mesmo que a valorização da mulher se relacione com a liberdade total e irrestrita, no que concerne às opções sobre seu corpo e sua sexualidade.

O convívio social é algo intrincado e cada cultura, cada época, tem suas especificidades, sendo, portanto, difícil defender este ou aquele tipo de comportamento, como ideal ou mais adequado. Se para uma cultura dita primitiva andar sem roupas é algo entendido como normal, por outro lado, em uma cultura dita civilizada, nos moldes que conhecemos, andar “peladão” por aí com certeza não é uma boa ideia. Isso não quer dizer, contudo, que não possa vir a ser um dia. Ocorre que esse caminho não parece ser provável, quando se analisam aspectos cruciais da estrutura social  moderna.

O desenvolvimento da civilização aguçou o senso crítico do homem e o tornou sensível às nuances do próprio comportamento. Assim, criaram-se parâmetros que passaram a nortear o comportamento social nas diversas esferas da ação humana. Essa é uma das características marcantes do modelo civilizatório. Ir de encontro a esta condição é, parece-me, negar aquilo que todos os agentes sociais ajudaram a urdir. Ou seja, uma contradição.

Intimidade, por exemplo, foi um conceito desenvolvido ao longo dos anos pela civilização. Todo mundo estabelece as fronteiras que delimitam sua intimidade, e ela é vivida de maneira pessoal por cada um. Abrir mão do direito à própria intimidade me parece contraditório, uma vez que nem mesmo os artistas mais excêntricos gostam enfim de transformar toda a sua intimidade em publicidade e sensacionalismo. Assim, não parece fazer sentido alguém, por exemplo, expor-se diante do mundo todo de modo tão despojado, que chega a aproximar-se do desleixo pessoal.

Quando alguém opta por comportar-se socialmente de um ou de outro modo, o desafio é ter ou pelo menos buscar ciência da extensão e das consequências das suas opções. E, claro, não fui eu quem inventou isso. Portanto, se alguém se veste de certo modo, se comporta linguisticamente de outro, ou, se possui certos atributos de natureza vária, receberá uma espécie de interpretação social, que não é necessariamente uma razão da realidade factual. Isso não se pode mudar radicalmente, nem mesmo quem apregoa a total independência dos valores da mesma sociedade de que faz parte. Ninguém atua absolutamente numa suprarrealidade, acima de todos os postulados coletivos.

Vejo, portanto, que, não por falta de coragem, mas por não achar totalmente válida a manifestação, muitas mulheres não fizeram coro. Outras não poderiam mesmo, ainda se quisessem, em virtude de estarem involucradas no machismo de nosso modelo social. Concordo com aquelas porque entendo que não defendem a si, mas a todas as mulheres. Elas sabem que é preciso valorizar de maneira consistente a mulher, sem embarcar na promessas fáceis que lhes aparecem, sobretudo cheias de argumentos falaciosos e inconsistentes. Muitas mulheres decentes lutaram e ainda lutam por causas verdadeiramente justas como o direito de votar, de candidatar-se a cargos eletivos, pelo direito de trabalhar, por equiparação salarial, etc. De repente, na esteira de toda essa batalha, surgem pequenos grupos defendendo ardentemente seu modo de vida. Lançando mão de recursos variados, sensacionalismo barato, e com amplo apoio dos instrumentos de massificação, mas sem a devida reflexão sobre a natureza e o alcance do que encampam - e o que é pior - grupos de mulheres inventam uma pseudoluta, a luta pela “desvalorização da mulher”.

Sou adepto do que, simplificando, chamarei liberdade verdadeira, e entendo que as pessoas devem ter direito de escolha. É o mínimo que este mundo louco pode oferecer a um ser humano. Entretanto, não se pode passar a achar simplesmente que todo e qualquer comportamento social é válido. É balela. Há comportamentos que o juízo humano entende como bons e outros, maus. Gostando ou não, temos que admitir que o ato de matar alguém, por exemplo, sempre será um comportamento repugnante. Por outro lado, salvar alguém não tem meio termo, é algo visto positivamente.

Precisamos, sim, intensificar a campanha de valorização da mulher. Triste é ver as próprias mulheres se desvalorizando mais e mais, a cada dia, enganadas pelas “facilidades” que o desenvolvimento oferece. Uma mulher entrar na política, por exemplo, e mostrar que elas não são muito melhores que os homens é, no mínimo, decepcionante. Aceitar certos papéis sociais aviltantes ajuda a maculá-la enquanto classe. Comportar-se cada vez mais como se fossem homens sujos, mal-educados, aumenta a descrença de que a mulher possa realmente ser admirada de maneira especial. Não se quer perfeição de ninguém, mas a mulher, que é mãe, poderia se esforçar por ser um pouco melhor. Cada um pinta o seu retrato, e a mulher às vezes, tem se traído por ideias equivocadas sobre modernidade.

Portanto, se uma mulher se veste de modo provocante, ela não dá, com isso, o direito a ninguém sobre seu corpo, mas dá o direito de se pensar e de se tirar conclusões, mesmo erradas, acerca de seu comportamento. Inclusive porque ela mesma tem essa prerrogativa sobre o comportamento alheio. Homens cuja índole é ruim, algo que dificilmente deixará um dia de existir totalmente, podem sim sentir-se atraídos mais facilmente por aquilo que salta aos olhos, embora, em termos mais específicos, se possa assegura a total inexistência da relação entre vestimenta e violência sexual. A força da imagem em qualquer campo é poderosa e, portanto, essa não pode ser usada inadvertidamente.

Veja-se, por exemplo, o desafio que é, em certos casos, para uma mulher vestida cautelosamente, mas com alguma ou muita beleza, mover-se diante de um grupo de homens desocupados numa calçada, ou em frente a uma obra, etc. Imagine-se então se a mulher adotar um comportamento afetado? Isso não contribuirá para pacificar o animus possidendi do ser rudimentar  e às vezes grotesco que é o homem.

Se queremos combater o preconceito contra a mulher, o primeiro que deve se responsabilizar pela tarefa é ela própria. Embora o uso de roupas não seja uma condição humana inicial, parece sim ter sido uma boa escolha, protegendo o homem em muitas situações e sentidos, permitindo-lhe exercitar a criatividade, entre outros benefícios e algum desconforto. Hoje, tem-se visto a moda dos peladões nas ruas. É uma forma de contestação à ordem estabelecida. É assim que vejo alguém invadir um jogo de futebol, diante de milhares ou milhões de pessoas em pelo vivo. Conquanto seja um excelente modo de atrair a atenção, só reafirma, na prática, a superficialidade e o comportamento contraditório dos manifestantes que pedem decência. É um modo pouco ortodoxo de agir e que aos poucos vai se exaurindo e esvaziando, tal é sua fragilidade e inconsistência.

Enfim, as mulheres precisam valorizar, resgatar e cultivar sua função principal na sociedade, a de participar ativamente da vida social, ajudando esse gigante informe a encontrar as respostas certas às suas demandas e importando-se essencialmente com aquilo que não as aproxima do modelo de comportamento tipicamente masculino ou machista, mas explorando suas próprias potencialidades e atributos, não, exaustivamente, os atributos da beleza física, como peito ou bunda entupidos de silicone.

Protestar é preciso. Isso é óbvio. Disponíveis meios não faltam: internet, televisão, marchas etc. Protestar sim, contra o machismo, mas sem roupa, ou como vadias, só piora as coisas. Valorizar e ampliar a admiração genuína dos homens pelas mulheres é o caminho certo da luta. Aceitar vestir a camisa de rotulação que muitas mulheres hoje aceitam, é, como se diz, trabalhar contra o próprio patrimônio. Só reforça a ideia da mulher na sociedade como um mero objeto, como um simples brinquedinho sexual. Como se ela não tivesse muito mais a oferecer.

A mulher precisa se olhar com um ser humano em primeiro lugar, com as necessidades de qualquer um deles, inclusive com necessidades sexuais também. Com a necessidade de viver plenamente, ativa, produzindo, amando, sendo amada, respeitando e se respeitando, pois só assim poderá almejar ser plenamente respeitada.


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