19 de setembro de 2011

I Crudeli


(aka The Hellbenders, Los Despiadados, Os Cruéis, Les Cruels)
País: Itália/Espanha
Língua: Italiano
Ano: 1967
Duração: 90 min
Direção: Sergio Corbucci
Fotografia: Eastmancolor 1.85:1
Elenco Principal:
Joseph Cotten: Coronel Jonas
Norma Bengell: Claire
Julián Mateos: Ben
Gino Pernice: Jeff
Ángel Aranda: Nat
Al Mulock: (mendigo)
Aldo Sambrell: Pedro
María Martín: Kitty


Depois de Leone, talvez o diretor de eurowestern mais representativo seja mesmo Sergio Corbucci. Digo “talvez”, para não menosprezar muitos outros nomes importantes, e que deram uma valiosíssima contribuição para a definição e para a afirmação do subgênero de origem no antigo continente. Formando com os anteriores uma
competentíssima tríade, não podemos esquecer, por exemplo, a figura de Sergio Sollima, que nos brindou com obras como La resa dei Conti, Corri uomo corri, entre outros filmes muito interessantes. Há ainda nomes importantes como Tonino Valerii, Giulio Petroni ou Ferdinando Baldi.


Corbucci é um diretor de westerns diferenciado, sobretudo pela visão política que perpassa sua produção. Essa sua característica soma-se a outras tão ou melhor desenvolvidas, como o cuidado de sempre trabalhar com bons roteiros, ou ainda a capacidade de levar às telas um apuro formal ímpar e um judicioso senso de equilíbrio entre os elementos de cena.

Em I Crudeli (Os Cruéis) não é diferente. Trata-se de um filme de aguçado senso político, levado a cabo com a particular competência corbucciana em trabalhar aspectos plásticos que dão à obra um tom mais realista, aproximando-a da crueza da natureza, sem embustes.

A história, em I crudeli, se passa por ocasião da sangrenta guerra civil americana, ou, mais precisamente, depois da rendição confederada. Escoltando um caixão, coberto com a bandeira dos derrotados, surge uma família inteira, sob o comando do pai e coronel do exército do sul, ainda sonhando com a secessão, Jonas (Joseph Cotter). Ao seu lado, cavalgam seus três filhos, Ben (Julián Mateos), Jeff (Gino Pernice), Nat (Ángel Aranda) e a “viúva negra”, vivida inicialmente por María Martín, na pele de Kitty e, depois, pela atriz brasileira, a carioca Norma Bengell, no papel de Claire. Jonas tem como plano angariar dinheiro e armas, para reorganizar seu exército e continuar alimentando seus ideais. Para conseguir seu objetivo, ele tenta passar despercebido pelas patrulhas militares ianques, montando uma farsa: um falso, e peculiar, cortejo fúnebre. Para dar veracidade a seu artifício, ele se utiliza de uma “viúva” do suposto morto, um capitão confederado, morto em combate, Ambrose Allen.

Com suas astúcias e sua obstinação militar cega, Jonas consegue emboscar um comboio ianque, roubando toda a carga em dinheiro e eliminando todos que, de algum modo, possam representar risco a seu projeto insano.

Acontece que, apesar dos arranjos, as coisas não correm exatamente como o planejado. Kitty se recusa a submeter-se aos planos tresloucados de Jonas e tenta escapar, acabando morta por Jeff. O bando acampa e Ben é encarregado por Jonas de conseguir uma substituta para Kitty. É quando surge a figura de Claire, uma astuta garota de saloon, que consegue mudar sensivelmente o ritmo dos acontecimentos.

Jonas, que, alegando fidelidade à esposa falecida, esquivara-se das investidas de Kitty, se vê às voltas com um novo problema, e que passa a constituir grave ameaça a seu projeto: Ben, justamente seu filho bastardo e mais hábil na arte militar, começa a envolver-se emocionalmente com Claire. Com o auxílio desta, e cada vez mais duvidando das convicções de Jonas, Ben começa a vislumbrar uma nova chance na vida, longe da loucura da guerra.

A partir deste desenho dramático, as personagens começam a mover-se num xadrez perigoso de emoções e conflitos.  A personalidade de cada um deles será crucial no desenrolar da trama.

Perdendo, então, definitivamente seu equilíbrio interno, o grupo inicia uma jornada rumo a seu destino, cambiando do, outrora, pretensamente conhecido, para outro, que os conduzirá inamovivelmente à aniquilação total.

Corbucci faz uma série de referências muito interessantes em I crudeli. Uma das mais interessantes se faz por meio da constatação de Jonas, e que ele se recusa a aceitar, de que seu comando fora, em certo sentido, usurpado. A questão aí é sobre a dificuldade de se controlar os grupos, suas vontades e aptidões mais básicas; e, ainda, acerca de como uma pessoa, sozinha, é capaz de manipular grupos ou até mesmo multidões. O desenlace da história nos mostra ainda que as expectativas, mesmo as mais nobres que se possam cogitar, estão sujeitas a esbarrar em situações praticamente insignificantes, sendo por elas inclusive inviabilizadas. Há uma quantidade considerável de imagens de grande simbolismo no filme, e que me parecem escapar a muita gente. Imagens antitéticas que revelam a dualidade que corrói as certezas humanas, levando o homem de um a outro extremo.

Há ainda vários temas interessantes abordados por Corbucci, como religião e familia. Quanto ao tema família, mais central no filme, a questão que se coloca de modo mais interessante é acerca de como uma ascendência equivocada pode levá-la ao infortúnio, a perder-se no interior de si mesma. A família de Jonas nunca esteve categoricamente convicta de seus objetivos.

Dos filmes western de Corbucci, este talvez seja o mais “americanizado”. De fato, I Crudeli não pode ser considerado inadvertidamente um eurowestern na acepção que se convencionou o uso da expressão. É sim um filme com praticamente todos os elementos de um western clássico americano, guardando raros elementos do estilo europeu. É, por assim dizer, com maior precisão, um filme que já aponta uma sensível mudança para a qual o western clássico rumaria, em direção à sua modernização.

A trilha sonora, por exemplo, embora seja um Morricone, característica por todo seu experimentalismo, no caso, é bem mais conservadora, construindo uma ambientação compatível com o ritmo dos acontecimentos, num estilo um pouco mais contido e semelhante às trilhas do western americano. Para alcançar sem esforço seu intento, Morricone se utiliza do som marcante e um tanto fúnebre do trombone, seguido por um ritmo bem marcado de caixa, chimbal, e com alguma abordagem operística, do que resulta, além de uma nota pessoal, um contraponto melódico fabuloso. Sintetizando um pouco, a música em I Crudeli é como que uma “marcha da morte”.

Com um número relativamente reduzido de personagens, Corbucci se sai bem. Praticamente todos interpretam seus papeis com grande competência, com destaque para Joseph Cotter. Em ralos papéis, Aldo Sambrell e Al Mulock dão um pequeno show à parte. Fiquei imaginando bobagem a respeito do suicídio prematuro de Al Mulock, no set de C’era uma volta Il West. Talvez ele não pudesse mesmo estar satisfeito em ter tido ignorado o seu grande talento, fazendo sempre papeis pequenos em seus filmes. Com essa pequena amostra, dá para perceber quantos papéis marcantes de vilão ou mocinho ele poderia ter feito, sobretudo na safra do western europeu, onde transitou sempre em espaço apertado. Uma frase muito bacana é dita por ele, quando inquirido por Jonas sobre como tinha aparecido. Sem meias-voltas ele responde: “Todos têm que sair do nada para ser algo neste mundo”.

Finalizando, I Crudeli é sim um bom western... que talvez ficasse um pouco melhor com um pouco mais de tempo para desenvolver a contento algumas situações, que, lacônicas, podem soar um tanto forçadas. Também é verdade que I Crudeli não está no patamar da contribuição de um Django, mesmo seguindo a cruzar o filme, arrastando um caixão; ou de um Il Grande Silenzio. Mas definitivamente não pode ser visto como um ponto baixo no trabalho de Corbucci. Entre outros motivos, porque, inclusive, poderia, em que pese a opinião americana, figurar na galeria dos grandes filmes feito em seu território.









Veja algumas imagens do filme:

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6 Comentários
Comentários

6 comentários:

Pedro Pereira disse...

Bom filme de Corbucci. Mais um em que o objecto caixão toma um papel preponderante.

--
Pedro Pereira

http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
http://auto-cadaver.posterous.com

LeMarc disse...

Olá, caro Pedro!

De fato, não tem como não notar esta similaridade entre i Crudeli e Django. Coisas assim, nada convencionais, fazem do western europeu uma experiência artística ímpar.

Grande Abraço!

LeMarc

Pedro Pereira disse...

É verdade. Não se fala muito deste filme, mas é bastante recomendável. E neste filme até temos uma brasileira a bordo, Norma Bengell, que aliás se safa muito bem na sua personagem.

Abraço.

--
Pedro Pereira

http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
http://auto-cadaver.posterous.com

LeMarc disse...

Sendo um Corbucci já se tem as expectativas aumentadas. Tenho optado, por enquanto, por falar de filmes mais esquecidos e que são, a meu ver, um tanto injustiçados. Esse tem algo contra si: não é um legítimo filme da escola europeia, e também não é americano. Acabou órfão.

Abraço!

LeMarc

Anônimo disse...

norma Benguel, tem talento, prada e vender.Parabens Norma.

Vinícius Lemarc disse...

Concordo com você, caro anônimo.
Um abraço!

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