20 de fevereiro de 2011

Uma atividade Divertida e Cultural


Resolvi fazer este post depois que li uma reportagem sobre as pulseiras magnéticas, e feias, vendidas por uma empresa americana, que prometiam vários benefícios à saúde, através do equilíbrio da energia no corpo. Para quem não está informado sobre a questão, a própria empresa produtora da pulseira acabou admitindo não ter comprovada sua eficácia, quanto aos benefícios sugeridos. Mas até aí ficou uma fila de celebridades pagando o mico de usá-las, como o jogador inglês David Beckham, o apresentador Luciano Huck, entre tantas. Mas um caso me chamou um pouco mais a atenção, o do nosso pagodeiro que tem cabeça que é um chopp, Zeca Pagodinho. É que ficou curioso um malandro carioca, versado, entrando nessa. Dá um bom samba. Mas acho que esse ele não faz. E eu, que pensava que “malandro” não precisava disso, que tava tudo bacana, fiquei surpreso.

N’um país em que a cada dia se valoriza mais o “espertalhão”, o que sabe fazer o rolo, e em que o certinho é, cada dia mais, o errado, o “mané”, fica pelo menos a lição de que ser “malandro” não é garantia de que tudo vai ficar bem, ao contrário do que pensa muita gente, lograda pela massificação midiática de conceitos superficiais, e pelo mau exemplo de vários agentes do Estado.

O fato é que, pensando nisso, palavra puxa palavra, sentido puxa sentido, me ocorreu um pensamento que não tem qualquer relação (como é curiosa nossa mente) com a história das pulseiras: uma breve avaliação das potencialidades da revista em quadrinhos do nosso malandro-mor,  Zé Carioca, em salas do fundamental.

 Sugiro o tipo de trabalho a seguir porque creio ser a escola contraponto essencial na análise coerente do que, aos desavisados, passa despercebido, exercendo papel decisivo na construção do tecido social. Não podemos assentir simplesmente, traduzindo em gestos, ideias,  como algumas veiculadas em músicas tipo “Malandro é malandro e mané é mané”, do excelente compositor Bezerra da Silva.

Normalmente, a pedagogia moderna aconselha muitas estratégias e atividades, enfim, com apoio na ludicidade, mas muitas vezes a coisa fica restrita à brincadeira em si, ou descamba para um tipo de moralismo fundamentalista que espanta qualquer pessoa, ainda mais crianças e jovens. Portanto, a atividade sugerida precisa ser, sobretudo, analítica e, o mais possível, imparcial.

Aqui, não vamos dar receita, porque não funciona. Sugerimos que cada professor busque sempre formas de trabalhar significativamente com os textos. Para isso, é preciso o conhecer do assunto e, depois, esmerar-se no que os franceses chamam savoir-faire.

No caso da revista do Zé Carioca, respeitando a maturidade do público alvo e lançando mão de estratégias diversas,  dá pra discutir, entre outras coisas, os tipos de valores que a história apresenta e sua relação com um modelo de comportamento considerável ideal. Para fugir da postura doutrinária, e enriquecer a atividade, pode-se fazer um passeio cultural fascinante com as crianças, passando pela história de seu criador, pela criação do próprio personagem Zé Carioca, e por sua história no nosso país; também pela visão que outros países, como os EUA, têm sobre certas questões brasileiras, e até latinas. Daí, passa-se à reflexão sobre os tipos de personagem construídos na revista: Zé Carioca, Nestor, Pedrão, Zé Galo, etc. Depois, pode-se comparar o quanto a revista se aproximou, em suas premissas, da realidade carioca e brasileira à época, e o quanto se aproxima atualmente, analisando, em seguida, seu universalismo.

São muitas as possibilidades e o professor terá de selecionar os aspectos que abordará, mas deve fazê-lo sempre a partir de um plano claro, com ponto de partida, trajeto, e ponto de chegada. As formas para isso são muitas e aqui não as abordarei. O bom-senso do professor o guiará, e isso é o certo.

Dá ainda pra relacionar o modo de vida e de comportamento proposto na historia de Walt Disney com o modelo proposto, por exemplo, por Mauricio de Souza, nas histórias de Chico Bento, outro brasileiro típico, conforme os estereótipos das histórias. Dá até pra embarcar em histórias reais como a da pulseirinha mágica que mexeu sua varinha de condão pra esse post sair.

Pode-se ainda procurar mais relações com outras linguagens. Uma sugestão é o cotejo com o filme de animação “Rio”, do brasileiro Carlos Saldanha, o mesmo da série Era do gelo, pela BlueSky, da Fox. O filme ainda não estreou, mas me parece que tem semelhanças com a história do papagaio. É a história da arara azul brasileira, em vias de extinção, que também se passa na cidade do Rio de Janeiro, com forte apelo na questão ambiental.

Se vai funcionar eu não sei, mas a meninada vai adorar. Brincadeira, funciona sim, e muito bem. Só reitero que o professor deve se acercar da precaução de não ser demasiado moralista ou extremamente superficial nas abordagens, porque quase sempre temos um ou outro caso.

Enfim, cremos que a escola precisa começar a trabalhar de modo mais significativo, dando cultura e criticidade a nossos jovens. Mas é chato ver as decisões sobre educação apontarem pra uma desagregação e pr’um esvaziamento que só pode interessar a quem comanda. Algo como se tivéssemos uma enorme quantidade de números, ou um número enorme, mas vazio, como 0.000.000.000.000: zero trilhão.

Essa pequena sugestão apenas aponta um pequeno caminho a trilhar, no emaranhado de problemas que se amontoam na educação brasileira.

Abraço!




Divulgação do filme "Rio"

Um brasileiro típico?
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