9 de novembro de 2010

Questão de qualidade

No post "Os Desafios do ENEM", discuto en passant algumas questões importantes, que precisam ser desentravadas pelo MEC. Aqui, passada a prova, e instalada a celeuma, volto ao tema para comentar, com base em exemplo retirado da prova, outro item que também pede alguma melhoria. Não acho correto todos atirando pedras, como donos de toda a razão, mas é importante sim discutir as melhorias no exame, porque está óbvio que ele tem sido uma grande dor de cabeça para ambos os lados. Como disse de algum modo no texto citado acima, parece-me, inclusive, que o ENEM deveria mudar de nome. A impressão que tenho é a de que, no curso dos anos, ele se tornou pouco útil como parte do instrumental para a melhoria do Ensino Médio e acabaram encontrando uma solução principal para justificá-lo: fazer dele um megavestibular.

Uma das coisas que mais avançou com o ENEM foi a qualidade das questões. Isso, para mim, é quase indiscutível. Entretanto, algumas delas têm apresentado falhas em sua elaboração, e isso precisa ser evitado, embora saibamos difícil evitá-las com cem por cento de certeza. Creio que os elaboradores sejam pessoas competentes para a tarefa, mas é necessário, sempre, redobrar a atenção nestes casos. Quase aleatoriamente escolhi uma questão da prova amarela, para sucintamente, fugindo da teorização complexa, demonstrar o tipo de falha a que me refiro. Vejamos abaixo:


As cinco opções de resposta iniciam com um verbo, na sequência, enfatizar,contestar, contrapor, relativizar e questionar. Fui ao dicionário Aurélio, buscar as definições dos mesmos, para auxiliar na resposta. A opção A é logo descartada, por conter certa impropriedade, a partir do verbo citado, e algum desvirtuamento ao referir-se a Espanha e Portugal. A opção C também é, de pronto, descartada, por não fazer a contraposição aludida. Sobram três, e que, de alguma maneira, podem ser consideradas opções corretas. Ou seja: há três possibilidades de resposta correta. Na opção B, argumentamos que o autor do texto, usando de modalização, contesta, embora de modo não peremptório, a posição dos seus entrevistados; as nuances de sentido na frase são muitas, e podem gerar discussões pontuais, mas essa é uma explicação plausível. Portanto, opção correta. A opção D inicia com o verbo relativizar, que não está no Aurélio, apenas seus familiares. Usando de um rápido artifício, trocaremos o mesmo por um termo sinônimo possível, resultando algo como: “relaciona ou refere-se a comportamentos...”. Outra resposta correta, embora se possam fazer alguns adendos no que tange ao quesito “posicionamento do autor”. Por fim, temos a opção E. Essa apresenta o verbo questionar. Segundo o Aurélio, entre outras acepções, o verbo tem a de “discutir”. Bem, se fizermos a substituição de questionar por discutir, “discute a existência...”,  perceberemos que essa também é uma opção válida.

Não à toa, os sites que tentam adiantar o gabarito do ENEM, apontam divergências na questão, segundo verifiquei (abaixo, link para os mesmos). O gabarito oficial apontará “a resposta certa”, mas isso não resolve o problema, e nos convence simplesmente. Imagine, dadas as condições de estresse na hora da prova, encontrar resposta a algo já complexo, e, ainda, com tantas impropriedades. Como ferverá a cabecinha dessa meninada que presta o exame. É preciso evitar questões mal elaboradas, também.


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