11 de novembro de 2012

Serandalhas



O vento tem só manquejado. A casta leviatã - e mãe do caos - habita toda a paisagem, embora tenha preferência em rastear ao largo, para proliferar, em quantidade e vitupério. Ela governa um reino perdido, muito distante, muito distante mesmo de quase tudo aprazível, dos bosques e ribeiras que ofertam os melhores frutos doces e apetecíveis. Seus habitantes, os serandalhas.
Eles?... andam todas as ruas e passagens com o som de suas carroças no último volume, tocando uma música quase sempre ordinariamente serandalhesca, e com graves distorcidos e alto-falantes rachando versos impublicáveis.
Desfilam coxeando com as bochechas muito redondas, quase a derramar a boca cheia de palavrões naturais, de usar no trânsito, no jogo dos seus times, no quarto, em meio a todos no botequim, na trilha e em qualquer outro lugar, público ou privado.
Quando vão à beira do rio ou do mar, levam uma fiada de filhotes mal instruídos para comer farofas que descem pelo canto da boca e pelo corpo seminu, e seguem sujando a terra toda de restos em vidro e plástico. Todo serandalha que se preza sempre tem um bombonzinho que seja no bolso para jogar o papel no chão, ou colar a goma em algum lugar, de preferência assentos públicos.
Ele está em todo lugar, mas habita preferencialmente as bordas das construções, calçadas e sombras de árvores, sem desconfiar que existem tantos bons livro que se poderiam ler, sem notar aquela boa canção folclórica ou erudita, sem lembrar de praticar um esporte por saúde ou bom lazer, que plantas adoram cuidados. Nada realmente útil constroem, entretidos que vivem entre histórias escabrosas e virtuais, muitas vezes de outros serandalhas, geralmente que parecem ameaçá-los, ou um ou mais dois temas pouco úteis, inclusive porque nunca os compreenderam.
Serandalhas andam feito bichos pelas ruas, xingando todos que não obedecem à sua lei particular, prontos para se matar como bestas, por uma preferência qualquer, ou indignados com alguém que passeia devagar, com responsabilidade. Para um serandalha, tudo é motivo de injúria e de agressão, como se isso não denunciasse sua fraqueza típica, até envasar uma boa prensa e agradecer pelo tempo de descobrir-se, por ralos instantes, apenas atoleimado. Eles acreditam com simplicidade quase ingênua na violência civil como se ela mais resolvesse que criasse problemas.
Entre seus deploráveis hábitos, o desmiolado também escolhe seus líderes como a salvaguardar seu estatuto de serandalha, promíscuo, a definhar a espécie. Troca seu beneplácito até por um charuto ou por um gole psicodisléptico. É, permitam o palavrório, deveras um monstro multicefálico de cérebro ausente.
Sua classe é aficionada por futilidades novelescas, batalhas esportivas manipuladas e todo tipo de embuste vendido como se fosse de graça pelos gurus da massa serandalha, que lucram rios com isso, sem se importar com os prejuízos sociais e financeiros que causam para o seu próprio reino.
Se pode facilmente reconhecer um espécime, pois ele sempre dá um jeito de furar a fila, de pisar a grama, de jogar lixo no quintal do vizinho, de emporcalhar as ruas, e não raro são vistos até se reproduzindo em público. Também não é difícil encontrá-los desrespeitando os direitos de ir, de vir e de ser de outros exemplares, com dejetos e gestos. Vivem falando alto coisas sem muito nexo; às vezes, promovem festas de mau gosto, ocupando e sujando ruas e os caminhos comuns. Mas o mais comum é que eles simplesmente boiam, vagando por seus caminhos há muito gastos.
Mas, a bem da verdade, ao cabo, os serandalhas são vítimas, principalmente de si mesmos e de outros serandalhas; todos se comportam como se fossem dobuanos melanésios, a servir gentilmente veneno entre si. Serandalha que é serandalha não perdoa ninguém, serandalha ou não. E cedo os pais serandalhas ensinam a seus tenros filhos como ser mais um da estirpe a ter sucesso.
Uma minoria que não é dessa classe pensou em educá-la para renovar o reino, mas desistiu. Os serandalhas não compreendem o que lhes falam. São péssimos ouvintes, além de mal falantes. Outros já propuseram exterminá-los, mas com isso quase ninguém concordou, não assim, como queima de arquivo, e porque desse jeito é coisa de serandalha.
A cultura serandalha não cobra patente, qualquer um pode cortejar seus usos e costumes, isso porque ela é tentadora; para alguns, deliciosamente fácil e tentadora. Mas o certo que não se discute é que seu reino nunca progredirá ou será admirado e respeitado pelos outros reinos, enquanto não se ultrapassar a cultura serandalha.

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2 Comentários
Comentários

2 comentários:

Darci Fonseca disse...

Olá, Vinicius - Esse seu texto me fez lembrar de Vampiros de Almas, de Don Siegel. Serandalhas dominam o país. Qual será o futuro, se é que haverá futuro? Um abraço do Darci

Vinícius Lemarc disse...

Darci,

O texto é razoavelmente despretensioso, mas, na verdade, o assunto é grave e complexo. Publiquei-o provavelmente para ganhar um tempinho pra terminar as postagens de western que estão iniciadas, mas o tempo tá curto pra concluir (ainda mais por causa da minha ignorância no tema). Quanto ao Serandalhas, sem alucinações, parece que entramos num beco sem saída, sobretudo porque a irresponsabilidade, a despolitização, a futilidade, etc. só se agravam nesses termos, mas, seja do jeito que for, temos que alcançar a outra margem. Para mim, é uma honra que o texto lembre pelo menos de longe o clássico de Don Siegel. Você é uma cinemateca ambulante mesmo!
Abraço!

Vinícius Lemarc

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