12 de junho de 2011

A literatura do povo: o cordel

Na contemporaneidade, a valorização e o reconhecimento das manifestações populares é uma tônica. É um processo complexo e que perpassa várias áreas do conhecimento humano. Não irei entrar nessa discussão aqui, por fugir dos propósitos deste espaço, que busca
e precisa ser um interlocutor que dialogue de modo mais simples e direto com os seus leitores.


Uma das manifestações mais interessantes de cultura popular, e por que tenho muito apreço, é a literatura de cordel, de origens europeias, mas que encontrou por essas bandas, principalmente no nordeste brasileiro, campo fértil para seu desenvolvimento. Atestar essa valorização é muito fácil. Vejam-se livros e estudos se multiplicando sobre o assunto, filmes, novelas, músicas, etc. Parece que, finalmente, todos, ou quase todos, perceberam que o povo é quem oferece o que há de mais vivaz e dinâmico, em termos criativos, e que suas manifestações encerram um retrato fiel de uma dada cultura, de seus costumes e seu sistema de crenças. E ainda servem como inspiração e nascedouro, onde os artistas ditos acadêmicos, como Ariano Suassuna, por exemplo, buscam matéria para sua arte. Entretanto, apesar de as coisas estarem mudando, ela ainda é vista, muitas vezes, apenas como pitoresca ou como destituída de valor artístico, ou como arte menor.

A bem da verdade, nem todo mundo que faz cordel é, ou foi, um artista, mesmo popular, na essência da palavra. Entretanto muita gente de talento incontestável produziu textos de grande valor artístico ou cultural. No caso, a dificuldade em que se esbarra aqui é com relação àquilo que vai além da forma, e que é de difícil delimitação ou compreensão.

Neste post, me pouparei de discorrer sobre essas questões difíceis, no trato da questão. Deixarei o leitor inclusive sem as características básicas, pois não há intenção pedagógica. Irei apenas passar a palavra aos grandes trovadores, colocando pequenos trechos de seus textos, com o fim apenas de divulgar um pouco essa maravilhosa, e difícil, forma de arte, que há muitos parece algo bem distante. Vamos, pois, a eles. Eles falam por si.

Trecho de “Proezas de João Grilo”, de João Ferreira de Lima, editado pela Luzeiro, inspiração para “O Auto da Compadecida”:


“Um dia, a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha,
Deixou João Grilo em casa
e, quando deu fé, lá vinha
Um padre pedindo água.
Nesta ocasião não tinha.

João disse: - Só tem garapa!
disse o padre: - de que é?
O João Grilo respondeu;
- É do engenho catolé.
Disse o padre: - pois eu quero.
João levou uma coité.

O padre bebeu e disse:
Oh! que garapa boa!
João Grilo disse: - Quer mais?
O padre disse: - E a patroa?
Não brigará com você?
João disse: -Tem uma canoa!

João trouxe uma coité
Naquele mesmo momento.
Disse: - Padre, beba mais!
Não precisa acanhamento -
Na garapa tinha um rato,
Estava podre e fedorento!

O padre disse ao menino:
- Tenha mais educação!
E por que não me disseste?
Oh, natureza de cão!
pegou a dita coité,
Arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: -Danou-se!
Misericórdia, São Bento!
Com isto mamãe se dana!
Me pague mil e quinhentos -
Essa coité, seu vigário,
É de mamãe mijar dentro!”

Agora um trecho de “Vida, vingança e morte de Corisco”, de Manoel D’Almeida Filho, também da Luzeiro, e cujo personagem faz parte da história do cangaço brasileiro e foi retratado, entre outros, por Glauber Rocha em seu “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

“Conseguimos descobrir
Onde foi que ele nasceu,
A data do mês, o ano,
E também como viveu
Oprimido, injustiçado,
Pelo mundo castigado
Até quando faleceu.

Foi nascido a dez de agosto
No estado de Alagoas,
Em Matinha de Água Branca,
Visto por muitas pessoas,
Em novecentos e sete,
A data que se repete
Sem lhe trazer coisas boas.

Pois parece que nasceu
Sem nenhuma compaixão
Sob os auspícios de um signo
Que só lhe trouxe opressão
No passado de uma era...
Tinha o instinto de fera
Com a fome de leão.”

Trecho inicial de “O Homem que pagou a promessa enganando o santo”, de Enéias Tavares dos santos:

“Para se fazer promessas,
É bom primeiro pensar,
Pois uma promessa à toa
Não convém se formular,
Porque quem promete deve,
Portanto, tem que pagar!

Promessa é coisa sagrada
E quem faz promessa tem
Obrigações de cumprir,
Pois Deus exige, e faz bem –
Por isso, eu nunca na vida
Prometo nada a ninguém!

Mas tem gente que não pensa,
Faz promessa em todo canto!
Falo dum cidadão que
Foi curado de quebranto
E, pra cumprir a promessa,
Pagou enganando o santo!”

Agora, o poema “Ser feliz” do menestrel do sertão, Patativa do Assaré.

Ser Feliz

Que tens, rico poderoso,
Que em vez de um supremo gozo
Tu vives tão desgostoso,
Cabisbaixo e triste assim?
Nessa tristeza absorto,
Com o teu coração morto,
Não acharás um conforto
Nos teus tesouros sem fim?

Se aí por esse ambiente,
Ante o cofre reluzente
Tua pobre alma não sente
Prazer e consolação,
Abandona o teu tesouro,
O brilhante, a prata e o ouro,
E vem consolar teu choro
Nas cabanas do sertão.

Vem matar o teu desejo
Aqui, onde o sertanejo,
Fruindo um prazer sobejo,
Não sente o peso da cruz,
E onde a lua cor de prata,
Linda, majestosa e grata,
Estende por sobre a mata
Sua toalha de luz.

Vem consolar os teus prantos,
Ouvir das aves os cantos
E admirar os encantos
Das obras da criação.
Contemplando a natureza
Expulsarás, com certeza,
Esse manto de tristeza
Que vive em teu coração.

Eu sei, por experiência,
Pois desde a minha inocência,
Nesta estrada, a Providência
Dirigiu os passos meus.
A vida vivo gozando,
Sorrindo, alegre e cantando,
Sempre amando e admirando
As maravilhas de Deus.

Nunca descreve a verdade
Quem diz que a felicidade
Vive lá pela cidade,
Entre as galas do salão.
Ela reina soberana
É dentro de uma choupana,
Ao lado de uma serrana
Que sabe mexer pirão.

É ao lado da sertaneja,
Que trabalha, que peleja,
E na vida só deseja
Cumprir o santo dever,
Sempre alegre, a fazer festa,
Boa, carinhosa e honesta,
Forte cabocla modesta,
Que sabe amar e sofrer.

Ela reina na palhoça,
Na mais rude e pobre choça
Do pobre bardo da roça,
Que no terreiro do lar,
À noite todo pachola,
Entre os filhos, que o consola,
Dedilha a sua viola,
Cantando à luz do luar.

Ser feliz é ser ditoso,
Ser nobre é ser venturoso,
Não é ser um poderoso,
Ser rico é ter posição.
A doce felicidade
É filha da soledade,
Nasceu na simplicidade
Sem ouro, sem lar, sem pão.

A Literatura de cordel faz parte de um grupo de manifestações mais amplo, que engloba o repente, os desafios de viola, entre outros tipos e subtipos, que são parte da cultura nordestina, mas que têm se espalhado pelo Brasil e até fora dele. Outra arte relacionada ao cordel, e que vem ganhando relevância, é a xilogravura, os desenhos feitos de maneira artesanal, a partir do entalhe em madeira. Mas, isso, deixaremos para, quem sabe, outro momento.

Abaixo, veja um vídeo sobre a literatura de cordel e outro da “Embolada do mensalão”, e também muito legal. Obrigado!





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2 Comentários
Comentários

2 comentários:

Lussilva disse...

Nossa, querido!!! Que textos maravilhosos!!!

Sou bem suspeita p'ra falar, pois amo literatura de cordel...No primeiro semestre, apresentei com meus alunos, uma peça teatral, na festa junina do IFPA...Apresentamos no ginásio da escola. Era a lenda do boi bumbá, escrita em versos como os de cordel...rsrs...Ficou ótimo!...rsrsrs...Bj!!!

LeMarc disse...

Oi, Lu, querida!

Somos, pois, dois apaixonados pelo cordel. Graças à evolução dos estudos acadêmicos, o trabalho com a literatura de cordel na escola está sendo descoberto e incentivado por todo o país. Os jovens, ou nem tanto, adoram atividades como a que você relata ter feito com seus alunos. Muitos são íntimos de um computador e pouco chegados a textos como o de cordel, e, quando os descobrem, não têm como não se encantar.
Presença ilustre no SC, obrigado pela visita, menina!
Um Grande Beijo!

LeMarc

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