5 de junho de 2011

“Heaven’s Gate”: em busca de justiça!


Obs.: O texto abaixo eu dividi em três partes, para facilitar a leitura, pois é um pouco extenso. Facilita para que você leia as partes, se necessário, em 3 momentos diferentes.

Título Nacional: O Portal do Paraíso
Diretor: Michael Cimino
Elenco: Kris Kristofferson, Christopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Jeff Bridges, Joseph Cotten, Mickey Rourke.
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Trilha Sonora: David Mansfield
Duração: 220 min.
Ano: 1980
País: EUA
Gênero: Western/Drama
Estúdio: Partizan / United Artists




Parte 1
Quando se discute arte, sempre se evita comentar um aspecto que, se nada tem a ver com a “matéria” da mesma, com ela sempre se relaciona, de um ou de outro modo: a questão financeira. Partamos de considerações simples, mas que a muita gente não parecem tão óbvias. Se considerarmos as artes, pintura, arquitetura, escultura, literatura, música, etc., perceberemos, infalivelmente, que elas se entrecruzam com questões econômicas, às vezes de modo menos invasivo, às vezes de modo ameaçador, ou destruidor. Longe vão os tempos em que o mecenatismo libertava o artista de preocupações de natureza financeira, mas, para se ter uma ideia sobre o quanto é mesmo difícil isolar certas coisas de outras, que, de universais, se manifestam quase sempre, independentes de nossa vontade, de alguma forma, havia um preço estabelecido a ser pago pelo artista, que se consubstanciava muitas vezes em produzir segundo os interesses mecênicos. Ora,  conquanto não tenha desaparecido totalmente a prática, ela se alterou e minorou, adquirindo contornos modernos outros. Exemplo fácil desse  tipo de relação, acontece com o cinema. Atualmente, o que ocorre com relação às produções cinematográficas no campo econômico é o que chamamos financiamento, que acontece de modos variados, mas que, de uma maneira geral, divide as produções em dois grandes grupos: o das grandes produtoras e a produção independente.

Se, por um lado, o domínio das grandes produtoras permitiu um avanço espetacular na indústria cinematográfica, por outro, impôs-se ao longo do tempo como uma ditadura, que acabou por, entre outros males, produzir a quase que destruição de filmes belíssimos, e seguramente a injusta desmoralização de artistas de primeira grandeza. Este é o caso de Michael Cimino, que carrega sobre os ombros o peso de ser o responsável por duas terríveis proezas numa única operação; a primeira, a da falência da United Artists, companhia criada em 1919 por uma associação de artistas, entre eles Charles Chaplin e D. W. Griffith; e a segunda, a de ter botado a tampa ao caixão do filme western. O pior é saber que isto ele conseguiu curiosamente executando uma das maiores peças do cinema western e do cinema mundial.

Não vamos discutir o quanto há de justo nisso, porque ele certamente tem sua parcela de colaboração nisso tudo, mas a verdade é que não pode carregar sozinho a responsabilidade pelas posturas de um sem número de pessoas, que contribuiram para o decurso dos fatos ocorridos. Com relação a isso, o mais lamentável é a quebra da United Artists, uma produtora que nasceu independente e que produziu, a meu ver, algumas das melhores peças do cinema, justamente por ter sido uma das maiores incentivadoras de grandes criadores e da produção de grandes obras, como no caso de Cimino, com o seu espetacular e incompreendido Heaven’s Gate.

Cimino surgiu como um promissor e talentoso diretor de cinema quando realizou, em 1978, The Deer Hunter (O Franco Atirador), filme sobre os traumas na guerra, com forte enfoque social, baseado no conflito do Vietnã. O reconhecimento de sua genialidade e todos os louros que colheu credenciaram-no a arriscar-se em produções ainda maiores. Assim, a United Artists, historicamente acolhedora de projetos que conseguiam seguir a difícil proposta de produzir cinema comercial com qualidade, o contratou para a realização de Heaven’s Gate, uma produção cara e grandiloquente, mas que acabou rotulada apenas como megalomaníaca.

É difícil precisar as causas do fracasso, em termos de aceitação, pelo público e pela crítica, do filme,  e financeiramente. O orçamento do filme ficou em torno de 45 milhões de dólares, cifra astronômica àquela altura, e que, se atualizada, segundo alguns, chegaria a cerca de 200 milhões.  Mas a questão não foi o “investimento”, foi o retorno: o fracasso de bilheteria foi cataclísmico para a United: uma arrecadação de cerca de 1 milhão de dólares, quase 100% de prejuízo. Talvez o tom crítico do filme, e o fato de colocar o dedo na ferida da história americana, especialmente no capítulo da expansão para o oeste, tenha desagradado aos americanos. Talvez não houvesse mesmo clima para mais autopunição no país após um Watergate  e a saída cabisbaixa de uma guerra. Outro fator determinante para o fracasso foi o fato de o filme ter sido mutilado para uma versão de 149 minutos. Muitas coisas ficaram truncadas e desconexas e muitas falhas de continuidade foram apontadas. Posteriormente, o diretor editou uma versão com 220 minutos, que melhorou notavelmente o filme. Mas o estrago já estava feito.

Cimino foi, por assim dizer, prejudicado por fatores como os citados acima, além de ter produzido uma obra comprida, pouco afeita à exibição nos cinemas, e para um público bombardeado por um arsenal de críticas negativas sobre o filme. O fato de o diretor ter realizado o filme da forma que imaginou, acreditando estar produzindo o maior western de todos os tempos, o afastou inexoravelmente dos objetivos comerciais, e praticamente obrigou a produtora a exibir o filme mutilado. Some-se ainda a isso tudo o fato de o público então estar pouco interessado em filmes mais lentos e sombrios,  em favor do escapismo dos filmes mais ágeis e leves, servidos à época.

Até aqui, já podemos perceber o quanto a questão financeira pesou na derrocada da carreira supostamente brilhante que esperava por Cimino. E o pior: houve outros tantos talentos, no cinema e em outras áreas, que sofreram a miúdo com a necessidade de produzir resultados financeiros. Isso tem se agravado e levado muita gente a colocar esse aspecto em primeiro plano, mesmo que produza coisa que nada valha. O sucesso dos best-sellers no âmbito da literatura e dos filmes água com açúcar, inclusive baseados em muitos best-sellers, comprova o que estou a dizer. Assim, percebemos que a produção em todos os campos é, em maior ou menor grau, determinada por fatores econômicos. Claro que não achamos que o componente econômico seja algo apenas danoso, sobretudo na produção cinematográfica. As verbas são fundamentais para que o autor possa dar vazão às suas ideias da maneira mais fidedigna e aperfeiçoada que o instrumental possa permitir. Mas isso não substitui o talento, soma-se com ele, e não pode, sob pena de se produzir apenas diversão desqualificada, para vender a uma sociedade mediocrizada, e sob medida para interesses escusos, ser o único parâmetro a observar, ou sobrepor-se sob todos os demais. Agora, difícil é dizer isso para quem lucra rios de dinheiro com a indústria cinematográfica. A opção desejável e decente seria achar-se um ponto de equilíbrio.



Parte 2
Depois de termos comentado algumas questões mais gerais sobre a produção de Heaven’s Gate, falaremos, agora, mais de perto, sobre suas principais características, esboçando alguma avaliação de suas qualidades e defeitos.

A trama do filme se passa durante a Guerra do Condado de Johnson, no final do século XIX, no, permitam, belíssimo teritório do Wyoming. Um conflito sangrento entre colonos imigrantes e  grandes criadores de gado, e que resultou em um massacre daqueles. O episódio faz parte da história e do folclore do oeste americano, e tem fornecido material para muitos filmes, livros e até músicas. Exemplo disso é Shane, o clássico maior de George Stevens, cujo leitmotiv é o mesmo, mas com a história contada sob uma ótica romântica. Heaven’s Gate, diferentemente, se insere no grupo de westerns que se convencionou, com alguma impropriedade, chamar desmistificador e apresenta uma visão mais pessimista e centrada nos acontecimentos. Esse colocar do dedo na ferida foi o que desagradou os americanos, que chegaram a chamá-lo harakiri, termo que designa o ritual de suicídio, indispensável no código de honra dos samurais.

O filme se inicia com a simbólica imagem de um céu púrpura, em contraluz, como a prenunciar todo o sangue que será embebido pela terra. Em seguida, a câmera se move, caminhando por referências religiosas, e descobre Averill, que surge de um portal em estilo renascentista, apressado, correndo para juntar-se à banda e aos colegas de turma, que, ao som de The Battle Hymn of the Republic, dirigem-se à cerimônia de colação no Harvard College. Averill consegue alcançar o grupo sob a Bridge of Sighs, ou “ponte dos suspiros”, um grande arco, usado na vida real como passagem pelos alunos do Hertford College. Como se pode observar, a cena não foi rodada em Harvard, mas em Oxford, na Inglaterra. Esse fato nos conduz a um dos principais questionamentos dos críticos ao filme, o desvirtuamento da história original, não apenas aí, mas em casos como o de James Averill nunca ter estudado, na realidade, em Harvard, mas em Cornell. A discussão é complexa e extensa, portanto, iremos evitá-la aqui, mas esse tipo de argumento não se sustenta quando se trata de arte. É mais ou menos o que ocorre com o eurowestern, que, sem apegar-se à busca da verdade histórica, produziu o que há de mais interessante no gênero, em termos estéticos. O autor de uma obra de ficção se dá o direito de certas licenças em nome da obra.

Esse prólogo define, portanto, a principal premissa usada pelo autor, a incoerência entre o discurso americano e sua prática. Averill se vê, no final da película, perplexo diante dessa constatação. No discurso de formatura, a exaltação de um país livre e igualitário, na prática a opressão às minorias consideradas obstrutoras do sonho americano. No decorrer do filme, há muitas referências textuais e passagens a confirmar essa tese.

Ainda no prólogo, vale chamar atenção para uma das mais belas cenas do filme, ao lado da dança de patins, a valsa no jardim, um alumbramento. A fotografia de Vilmos Zsigmond e toda a coreografia, todo o trabalho de arte, os detalhes das moças à janela espiando os rapazes em volta de uma árvore centenária, as brincadeiras, tudo isso, constituem uma cena de extraordinária beleza plástica.

Em seguida, a trama do filme se inicia efetivamente com a chegada de Averill ao oeste americano, 20 anos depois. Lá encontra velhos amigos, Ella, uma prostituta dona de bordel, com quem tem um caso, e defronta-se com todo o descalabro em que vivem os imigrantes europeus.

Um desses amigos, Billy, faz parte da associação de criadores de gado e conta-lhe, decepcionado, sobre o plano da associação em assassinar cerca de 120 imigrantes, usando como principal pretexto a acusação de roubo de gado. Para isso, a associação elabora uma lista, na qual consta o nome de Ella, acusada de receber pagamentos em gado ou provenientes do seu  roubo. Ao lado de Averill, Ella mantem um relacionamento com o principal pistoleiro da associação, Nathan Champion, que, por sua vez, é imigrante e trabalha para seus próprios inimigos, sendo odiado por sua própria classe.

A partir daí a história se desenrola em vários acontecimentos interessantes. Aqui não os relatarei em maiores detalhes para não estragar todo o prazer a quem ainda não assistiu ao espetáculo, mas destes, três são mais relevantes: 1. O fato de os imigrantes organizarem uma resistência para acabar com as mortes e assegurar seus direitos, liderada por Averill, então definitivamente contra sua própria classe;  2. a mudança de lado por parte de Nathan, por ocasião do estupro de Ella pelos homens da associação, momento em que percebe que havia muito mais do que roubo de gado como motivação para a “limpeza”; e 3. a interferência do exército americano no conflito, em favor dos barões do gado, o que muitos consideram como um desvirtuamento dos acontecimentos, pois, segundo estes, o governo puniu com firmeza inclusive membros da associação.

O final do filme é chocante. Uma pilha de corpos, de gente e de animais, espalhada pelo chão e Averill desolado, sem conseguir compreender em absoluto as razões que movem o homem, decepcionado com a própria classe e com sua nação, a mesma que julgara capaz de proteger e de lutar por cada cidadão, independente de sua classe ou origem.


Parte 3
Heaven’s Gate é sim um grande filme. Uma fotografia e uma música extraordinárias, um roteiro competente, um texto afiado, interpretações convincentes, enfim, um filme feito com rara competência. Infelizmente, como o próprio filme demonstra, os caminhos do homem são mesmo tortuosos, e parece ser difícil mesmo que as coisas mais sofisticadas tenham o prestígio que merecem.

Sem dúvida que O Portal do Paraíso continua com sua mensagem atual, assim como o filme western, embora tenha declinado do gosto às novas gerações. Quando se veem os atuais conflitos de terra no Brasil, por exemplo, não se pode negar que, embora em local e época diferentes, as motivações e seus desdobramentos fiquem muito próximas daquilo que Heaven’s Gate discute.

Milhões e milhões de reais são perdido, aí sim, em produções caríssimas, e mesmo aquelas que conseguem retorno financeiro, muitas vezes não trazem qualquer retorno de outra ordem, artística ou humana. Muitas irão desaparecer tal é sua futilidade, enquanto Heaven’s Gate se firmará como um dos melhores fracassos que não deveria, mas que Hollywood produziu.

Talvez Heaven’s Gate tenha sido mesmo o primeiro western marxista da história do cinema, com a substituição do herói solitário de Shane pela turba enraivecida e organizada a lutar pelos seus direitos, o que deve ter assustado um pouco os americanos. Provavelmente a sombra do macartismo e de um mundo polarizado tenha também assombrado um pouco a opinião pública americana, algo que mesmo agora talvez ainda se mantenha como um fantasma, apesar do declínio do ideais comunistas.

Antes de concluir, gostaria apenas de registrar que não tenho sentimento antiamericano, ou contra qualquer povo que seja. Essa é uma bobagem que tem se difundido a passos largos nos meios ditos intelectuais e que precisa ser melhor avaliada. Todos os erros cometidos por eles ou por qualquer outra nação ou povo do mundo não podem ser ignorados, assim como não pode ser esquecida a sua contribuição para a humanidade. Os erros não podem ser negligenciados ou esquecidos, porque é a partir das liçoes aprendidas com eles que encontraremos respostas para a construção de uma nova ordem mundial.

Torcemos para que finalmente sejam lançadas no Brasil, em edições de qualidade, filmes como Heaven’s Gate, o que ainda não deve ser algo tão simples para os americanos, uma vez que mostra uma ferida difícil, e que, talvez, nem mesmo por dinheiro, principal paixão nacional dos americanos, valha a pena de correr o risco.

Finalmente, se você tiver assistido ao filme, deixe abaixo sua contribuição, seu depoimento, para enriquecer nossa discussão.




Trailer


A dança de patins
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