10 de julho de 2016

O viajante e os caranguejos


Dia desses, confessou-me um viajante, desses tipo profissional, igual pescador, daqueles que navegam as ondas imponentes em busca do misterioso peixe encantado que habita as mais profundas águas... disse-me ele que havia se demorado em uma entrega mais do que o tacômetro e o patrão permitiam, porque, passando por uma estrada à beira do mangue, deparou-se com uma pitoresca cena: uma grande marcha que fechava aos rodões a passagem dos que não aceitavam deixar um rastro de carne doce e carapaça triturada desenhado no asfalto negro. Era uma passeata pelo direito dos machos de oito patas e dois torqueses de não ir direto para a panela; apenas eles, os varões. Um ato pelo fim da política das leis e dos homens, que protegem as fêmeas de terem o mesmo fim que eles no caldo quente. Acham os coitados que não é possível em época tão moderna e esclarecida que ainda exista esse tipo de aberração. Não há qualquer diferença importante que possa justificar tamanha desigualdade de tratamento entre os pobres bichinhos; apenas porque ainda há quem pense que há diferenças de natureza entre eles.

“Olhe bem para nós”, dizia o iluminado líder, “não somos tão parecidos?”, “Você consegue apontar nesta multidão, sem pesaroso esforço dimórfico, machos e fêmeas de pernas peludas?”...

“Não, não consegue! Caranguejos são todos iguais; e podem parar, seus malvados, de perseguir os que, vocês acham, não merecem tanto apreço. Chega de mandar para o pilão apenas os que vocês escolheram com base em seus preconceitos de classe. Basta de imposições! Somos todos iguais! Todos temos andado e pernas tortas!...”

“Queremos as fêmeas na panela!”, gritava, na mais confusa caminhada que se viu, a turba exaltada.

“Meu sonho é virar um caranguejo gigante!”, reclamava outro, meio entristecido.

E, assim, aquela algazarra, que cintilava raios de sol que se derretiam sobre o asfalto quente, e que se misturavam a tons de vermelho móvel, espichou-se por toda uma manhã, e o viajante quase acabou perdendo a carga e o emprego, se é mesmo verdade o que ele me contou.

Agora, anda ele meio receoso de passar por lá novamente. “Vai que eu trumbico com a resposta das fêmeas!”, diz.

Mas o pior de seus receios é mesmo o de comer caranguejo e um olhudo insurreto rebelar-se no prato!


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