10 de outubro de 2015

Caso de Consulta



Completava pouco tempo que ele havia saído do consultório médico com a receita à mão, decidido a comprar agilmente o início da resolução da sua insolúvel dor de cabeça.

Entrou na primeira porta que encontrou, dando com uma simpática atendente – coisa rara em farmácia – que, após examinar criteriosamente aquela pauta grafada toda ela em um inominável português pós-moderno, indecifrável aos leigos, sentenciou:

- Infelizmente, senhor, não temos nenhum dos dois.

Agradeceu com um sorriso de velho conhecido e saiu para continuar a tarefa.

Em outra farmácia, um senhor lhe disse que, por inexplicável coincidência, havia vendido minutos antes o último frasco do segundo remédio declinado na receita.

Naquele dia, como o tempo de sobra eram só farelos, ele não pôde andar por toda a cidade – coisa que no sábado fez minuciosamente, entrando em todas as vielas e becos possíveis, à procura do “néctar dos deuses”, encontrado apenas na literatura.

Em certo momento sentia-se mesmo o próprio Sherlock Holmes seguindo uma pista que sempre levava à estaca zero, porquanto pensava o próprio gênio britânico da investigação tornar-se-ia ineficiente, tal afigurava-se o grau de dificuldade a cada nova investida.

A única observação que conseguira intuir até então dizia respeito à expressão taciturna que os atendentes, em sua maioria, faziam, quando, aparentemente insofismáveis, respondiam não ter qualquer dos remédios.

Após derreter a sua manhã de sábado naquele afã, ouvindo as mais controversas declarações ...

“Huum... esse aqui é da linha dos importados; eu sei, é muito difícil encontrar.”

“Paliomicilina?... Não! Não trabalhamos com isso, aqui”

“Amigo, esse afrodisíaco aqui põe maxixe pra crescer em pé!”

“Tem lá na farmácia do Inácio, pros lados do Boqueirão; é tiro certo”;

“Se você quiser outro, que funciona da mesma forma? Não! Melhor... sem contar que é bem mais barato...”

“Acho que tenho este – apontando na receita – se você tivesse vindo mais cedo... não abrimos sábado à tarde. Agora, só segunda...”

Muito aborrecido - agora sim, ele tinha uma exemplar dor de cabeça - resolveu voltar ao consultório médico o quanto antes, na segunda-feira, o primeiro da fila, para pedir que o doutor trocasse os remédios, conforme aconselhara um dos farmacêuticos, por outros, de mesmo espectro – similar, mas familiar. Foi quando descobriu, surpreso, que passeara por toda a cidade apenas com a folhinha de instruções, com procedimentos para sua dieta, que o médico providenciara para o período de tratamento.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
0 Comentários
Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário