21 de agosto de 2013

A Nova Arma Secreta



Nesses dias modernos, temos acompanhado uma verdadeira rebelião das massas pelo país. Há protesto manipulado por político, por aumento de salário, protestos com pé, outros sem cabeça; enfim, a pipoca está doida dentro da Panela Brasil.

O último episódio a merecer destaque aconteceu em meio aos protestos ocorridos no Rio de Janeiro, em que os manifestantes, vestidos como verdadeiros rebelados, à la Black Bloc, um esperto eufemismo encontrado para vender melhor o produto (ou para se proteger, como argumentam), pressionam as autoridades para fazer uma CPI sem taças e petiscos, a estalo de chicote e cadeado - “bobagem juvenil dentro do covil”.

A transformação do mundo em um reality orwelliano tem ajudado aqui, dificultado ali - neste caso, e curiosamente - sobretudo a vida de duas categorias que, a despeito de viver atracadas, se odeiam ainda mais que judeus e palestinos: bandido e polícia!

Some-se a isso, também, a proliferação de especialistas em tudo no mundo: em leitura de nádegas, em tipos de chulé, em palpites on-line; enfim, gente formada em escala industrial, muitas vezes, em linha de produção pior que as piores da China.

Pois é! Nesses ditos protestos aconteceu o que muita gente já temia; aliás, o que só os broncos não previam: um policial mais exaltado temperou com pimenta, sem refresco, o cartão de visitas de um jornalista, ou de vários deles, e de mais um bocado de gente que ficou ao alcance de suas mãos, quando ele, como que tomado pela pombagira, fez um circulo de fogo que nem mesmo um casal de mosquitos da dengue que estava passando pelo local, em mudança de zona, conseguiu escapar. E pior, sobrou até para uma pobre transeunte, que passava, parece, com um saquinho de ovos, para o bolo de aniversário do filhote mais novo. Quebrou tudo! Foi mesmo uma covardia com a coitada, encurralada no paredão, é verdade. Mas o homem estava possesso; pelo que deu de ver, afogando-se na impaciência, especialmente com alguns advogados, que não paravam de assoprar desde o início da via crucis.

Não preciso dizer também que o praça já foi devidamente afastado de suas funções e que vai encarar a corregedoria.

Mas, esse não é o ponto, o ponto é a reunião secreta. Vou confidenciar a você, amigo leitor, mas só a você, porque é gente nobre, e eu não contaria a qualquer um. É que com tanta gente pressionando, tanto intelectual dando opinião, hoje estamos para além do bem e do mal, e achar um dos dois é tarefa ingrata.

Antigamente policial não tinha arma sofisticada, não tinha colete; era só um porrete, mais seis e uma pedrada, e muita coragem... ou sebo nas canelas. Aí, com toda propriedade, os entendidos começaram a achar perigoso, em certas ocasiões, um policial portar uma arma letal, como um velho Colt ou uma pistola; “não é proporcional, é arriscado, é desnecessário”, ponderaram. Um escudo e um troço para dar umas bordoadas já seria suficiente; depois, viram que era preciso encontrar e variar as técnicas, porque cada caso é diferente do outro. Meteram os cavalos na história, começaram a montar armaduras quase medievais para alguns batalhões, e chegaram à incrível descoberta das armas não-letais, com a adoção quase irrestrita, para controle de distúrbios em multidão, da bala de borracha. Acontece que com essa inovação já tem até gente cega.

Não que os políticos estejam aí para o povo. Ele é apenas seu instrumento de poder. Mas eles precisam passar a imagem, que é o que realmente conta para as pessoas - que, por sinal, são eleitores - senão distribuiriam bombas químicas para os dois grupos, que na verdade são o mesmo, se matarem.

Eles não estão nem um pouco interessados, senão em botar as coisas fora do eixo; como dizia o saudoso Chico, o cearense: eles querem mais é que pobre se exploda! Eles geralmente contratam, e mal formam, uma montoeira de pobres da periferia, gente com pouco acesso a cultura, para fazer o papel de polícia, depois, ficam só rindo de longe, vendo seus “contratados” se matando com outros pobres, seus coirmãos, diminuindo, assim, a quantidade da espécie e levando a efeito seu incansável plano de combate à pobreza. O sonho - só sonho mesmo - de qualquer policial decente é desenhar cinco dedinhos na tábua do político que desviou milhões, deixando morrer à míngua o povo na fila e no chão dos hospitais do país, tudo devidamente investido em fazendas e regalias. Médico para pobre, quando tem, qualquer um serve; para político, de esquerda ou de direita, hospital é de capitalista, de primeiro mundo. Médico cubano, nem pensar!

Pois bem, a experiência começou a mostrar que a bala de borracha não era tão inofensiva assim, que não era uma tão boa ideia. Cogitou-se depois o uso de pistolas taser, mas teve gente que ficou chocada com a ideia. “Esses brinquedos já mataram um bocado de gente”, “Não seria boa ideia arriscar”, e descartou-se a ideia. Apelaram, por fim, para a mais brilhante invenção em matéria de segurança segura dos últimos tempos: o spray de pimenta! É..., mas, pelo visto, o picante vaporizador também já começou a desagradar. Os especialistas acham que o uso abusivo de spray deve ser evitado (isso, sem falar, das ONG’s verdes, que reclamam do desperdício de pimenta, e do consequente desrespeito à natureza).

Assim, atônitos, estressados, e completamente sem saber o que fazer - e o que é certo e o que é errado - os policiais se veem desarmados (felizmente... vai que um cara desses, já meio desequilibrado de tanto enxugar gelo no molhado, faz uma besteira, atira a esmo numa manifestação e acerta alguém que nem bandido é?) e sem poder sequer dizer um palavrão daqueles para aquele chato arruaceiro que talvez queira mesmo o bem do país.

Então, sem saber direito como orientar os seus comandados, autoridades civis e as militares se reuniram, em sigilo, a encontrar uma solução para o problema: a de que arma usar contra os manifestantes, sem colocar em risco a vida, a honra e a apatia de ninguém.

Já houve três reuniões, a portas fechadas, para debater o tema, e parece que chegaram a uma solução. Uma vez descartadas as balas de borracha, as pistolas de choque e o spray de pimenta, partiram os legisladores para as mais diversas e até singulares sugestões: um propôs o uso de paintball, mas outro argumentou que poderia também machucar inocentes, ou sujar as roupas de jornalistas, e que isso poderia custar caro na tv, etcétera, etcétera; outro, saudosista dos tempos de criança, arriscou falar do estilingue, mas esse foi rechaçado por unanimidade; alguém falou de usar jatos d’água, mas foi desencorajado por argumentos sobre a dificuldade de deslocar um monte de caminhões para molhar a turba toda; e ainda poderia encharcar gente enganado, político infiltrado (falaram até do risco de virar uma balbúrdia só, com todo mundo tomando “banho de chuva”, com, ou sem roupa na praça (nesses tempos!), até mesmo policiais). Não era sensato. Alguém aventou usar sonífero, mas foi dissuadido, pois não dava pra controlar direito quem iria dormir, e esse poderia facilmente ser contratacado com o uso de máscaras; enfim, falaram em usar chibata, propuseram luta corporal, cusparada, mas nada foi aceito. Era ponto pacífico: o contato corpo a corpo, ou intrumento x corpo deveria ser evitado, sob pena de desrespeitar ou machucar gente inocente.

Finalmente, após muitas discussões e bate-bocas, chegou-se a uma solução razoável, provisória, com promessa de ser efetivada se tudo desse certo: os policiais não mais vão tocar em ninguém, nem vão usar arma nenhuma que possa ferir alguém, nem mesmo a língua afiada. Decidiram os legisladores que os policiais vão passar por curso de aperfeiçoamento de grito; instruir-se para intimidar as multidões à base de berros estrategicamente utilizados. O lema será: “Ninguém pode gritar mais alto que o terceiro batalhão!”. A policia visa, assim, e à incumbência dos políticos, abafar as vozes da ruas, travando a mais surreal e inusitada batalha campal, a “batalha do grito”. Assim, ninguém porá a mão e nem machucará ninguém, no máximo, os seus ouvidos. Essa é a mais nova, segura e estimulante arma da policia brasileira.

E por falar em ataque aos ouvidos, só inferior ao da música de ponta que infesta o país, ouvi um a boca miúda hoje; sabe como é, essa história de velocidade do som, da luz, é coisa de cabeça exata; pior ainda é quando as coisas viajam à velocidade da fofoca! É isso mesmo, parece que já andaram vazando o segredo. Me disseram que já tem associação de condomínio, de morador de rua, um bocado de gente preparando um protesto no centro, até um abaixo-assinado, para exigir o direito de dormir em paz, sem ser incomodada pela gritaria e pela poluição sonora que podem virar as noites da urbanidade. O direito de dormir para o dia árduo de trabalho é sagrado para o brasileiro, menos para os mandriões e os políticos, claro.

Ah!... também ouvi dizer, de um camarada meu, que, prevenindo-se, caso alguma coisa dê errado, já tem policial treinando careta,  ventriloquia e teleluta por aí.




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